sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Contos da Meia Noite - A Passagem

A MORTE (Cruz e Sousa)

A Morte
Oh! que doce tristeza e que ternura
No olhar ansioso, aflito dos que morrem
De que âncoras profundas se socorrem
Os que penetarm nessa noite escura
Da vida aos frios véus da sepultura
Vagos momentos trêmulos decorrem
E dos olhos as lágrimas escorrem
Como faróis da humana Desventura
Descem então aos golfos congelados
Os que na Terra vagam suspirando
Como os velhos corações tantalizados
Tudo negro e sinistro vai rolando
Báratro abaixo, aos ecos soluçados
Do vendaval da Morte ondeando, uivando...


ReneMagritte, Le double secret (1927)

Mari Gomes

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Hino dos Comedidos Autor Lupe Cotrin.flv

Canto Para A Minha Morte



(Bansky)

Composição: Raul Seixas / Paulo Coelho

Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar
Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida
Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.
Existem tantas... Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A anestesia mal aplicada,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio...
Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem,
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite...
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

My Death - David Bowie (Tradução)


(David Bowie - diamond dogs-front)

Minha Morte

Minha morte espera como uma velha libertina
Tão confiante seguirei seu caminho
Lutando com ela
e com o passar do tempo
Minha morte espera como uma verdade da bíblia
No funeral da minha juventude
Chore alto por isso
e pelo passar do tempo
Minha morte espera como
uma bruxa na noite
Tão certo quanto nosso amor é brilhante
Não vamos pensar na hora da passagem

O que quer que esteja atrás da porta
Não há muito a fazer
Anjo ou demônio, eu não me importo
Porque na frente daquela porta
está você

Minha morte espera como um mendigo cego
Que vê o mundo através de uma mente escura
Dê uma moeda a ele
pelo passar do tempo
Minha morte espera para permitir meus amigos
algumas épocas boas
antes de acabar
Então vamos beber a isso
e à hora do passar do tempo
Minha morte espera lá, entre suas coxas
Seus dedos frios fecharão meus olhos
Vamos pensar nisso e na hora da passagem

O que quer que esteja atrás da porta
Não há muito a fazer
Anjo ou demônio, eu não me importo
Porque na frente daquela porta
está você

Minha morte espera lá entre as folhas
Nas misteriosas mangas do mágico
coelhos e cachorros e a hora da passagem
Minha morte espera lá entre as flores
Onde as sombras mais escuras
Sombras mais escuras se acolhem
Vamos colher lilases para a hora da passagem
Minha morte espera lá, numa cama de casal
Velas do perdão em minha cabeça
Então puxe os lençóis contra
a hora da passagem

O que quer que esteja atrás daquela porta
Não há muito a fazer
Anjo ou demônio, eu não me importo
Porque na frente daquela porta está você


*http://letras.terra.com.br/david-bowie/306748/traducao.html


Post. Jonathan

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Evocações

 Eu trazia, como cadáveres que me andassem funambulescamente amarrados às costas, num inquietante e interminável apodrecimento, todos os empirismos preconceituosos e não sei quanta camada morta, quanta raça d’África curiosa e desolada que a Fisiologia nulificara para sempre com o riso haeckeliano e papal!

CRUZ E SOUSA


O critério científico da inferioridade da raça negra nada tem em comum com a revoltante
exploração que dela fizeram os interesses escravistas norte-americanos (entre
parênteses, seria o caso de perguntar: por que só norte-americanos?)
 médico e antropólogo Nina Rodrigues
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 No mesmo Brasil culto do final do século XIX, em que Nina Rodrigues e seus discípulos na área de Medicina Legal apontavam a degenerescência das populações de origem africana, um poeta negro retinto, neto de escravos, filho de forros, João da Cruz e Sousa, acusava “a ditadora ciência d’hipóteses” de negar à sua raça “as funções do Entendimento e, principalmente do entendimento artístico da palavra escrita”
Cruz e Sousa lança o seu protesto contra os argumentos da ideologia dominante no discurso antropológico. Trata-se de um fenômeno notável de resistência cultural pelo qual o drama de uma existência, que é subjetivo e público ao mesmo tempo, sobe ao nível da consciência inconformada e se faz discurso, entrando assim, de pleno direito, na história objetiva da cultura.
                                                                                           
ALFREDO BOSI
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* Fonte: SOUSA, João da Cruz e. Evocações. Edição fac-similar, FCC Edições. Florianópolis, 1986.

maíra barbosa

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ironia de Lágrimas

(El peso de los muertos, fotografia R. Caracheo)

Junto da Morte é que floresce a Vida!
Andamos rindo junto à sepultura.
A boca aberta, escancarada, escura
da cova é como flor apodrecida.

A Morte lembra a estranha Margarida
do nosso corpo, Fausto sem ventura…
ela anda em torno a toda a criatura
numa dança macabra indefinida.

Vem revestida em suas negras sedas
e as marteladas lúgubres e tredas
das ilusões o eterno esquife prega.

E adeus caminhos vãos, mundos risonhos!
Lá vem a loba que devora os sonhos,
faminta, absconsa, imponderada, cega!

(Cruz e Sousa)


jonathan

domingo, 26 de dezembro de 2010

SANDMAN







 Sandman é uma versão da lendária figura mitológica responsável pelo sono. No mito nórtico, ele jogava um punhado de areia nos olhos dos seres vivos e os fazia dormir. Neil Gaiman transformou este lendário ser em um dos perpétuos – figuras que estariam acima dos deuses, pois teriam surgido com o primeiro homem e só desapareceriam com o último. Na ordem estipulada por Gaiman, eles seriam sete: Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio.



 



maíra barbosa

sábado, 25 de dezembro de 2010

Sexta-Feira Santa

(Cristo Mutilado, fotografia por R. Caracheo)


Lua absíntica, verde, feiticeira,
Pasmada como um vício monstruoso...
Um cão estranho fuça na esterqueira,
Uivando para o espaço fabuloso.

É esta a negra e santa Sexta-feira!
Cristo está morto, como um vil leproso,
Chagado e frio, na feroz cegueira
Da Morte, o sangue roxo e tenebroso.

A serpente do mal e do pecado
Um sinistro veneno esverdeado
Verte do Morto na mudez serena.

Mas da sagrada Redenção do Cristo
Em vez do grande Amor, puro, imprevisto,
Brotam fosforescências de gangrena!

(Cruz e Sousa)




jonathan
Para Boddah,

Falando como um simplório
experiente que obviamente preferia ser um efeminado, infantil e chorão. Este bilhete deve ser fácil de entender. Todas as advertências dadas nas aulas de punk rock ao longo dos anos, desde minha primeira introdução a, digamos assim, ética envolvendo independência e o abraçar de sua comunidade, provaram ser verdadeiras. Há muitos anos eu não venho sentindo excitação ao ouvir ou fazer música, bem como ao ler ou escrever. Minha culpa por isso é indescritível em palavras. Por exemplo, quando estou atrás do palco, as luzes se apagam e o ruído ensandecido da multidão começa, nada me afeta do jeito que afetava Freddy Mercury, que costumava amar, se deliciar com o amor e adoração da multidão - o que é uma coisa que totalmente admiro e invejo. O fato é que não consigo enganar vocês, nenhum de vocês. Simplesmente não é justo para vocês, e pior para mim. O pior crime que posso imaginar seria enganar as pessoas sendo falso e fingindo que estou me divertindo 100%. Às vezes acho que eu deveria acionar um despertador antes de entrar no palco. Tentei tudo que está em meus poderes para gostar disso (e eu gosto, Deus, acreditem-me, eu gosto, mas não o suficiente). Me agrada o fato de que eu e nós atingimos e divertimos uma porção de gente. Devo ser um daqueles narcisistas que só dão valor às coisas depois que se vão. Eu sou sensível demais. Preciso ficar um pouco dormente para ter de volta o entusiasmo que eu tinha quando criança. Em nossas últimas três turnês, tive um reconhecimento por parte de todas as pessoas que conheci pessoalmente e dos fãs de nossa música, mas ainda não consigo superar a frustração , a culpa e a empatia que tenho por todos. Existe o bom em todos nós e acho que eu simplesmente amo as pessoas demais. Tanto que chego a me sentir mal. O triste, sensível, insatisfeito, pisciano, pequeno homem de Jesus. Por que você simplesmente não aproveita? Eu não sei! Tenho uma esposa que é uma deusa, que transpira ambição e empatia, e uma filha que me lembra demais de como eu costumava ser, cheia de amor e alegria, beijando todo mundo que encontre porque todo mundo é bom e não vai fazer mal a ela. Isto me aterroriza a ponto de eu mal conseguir funcionar. Não posso suportar a idéia de Frances se tornando o triste, autodestrutivo e mórbido roqueiro que eu virei. Eu tive muito, muito mesmo, e sou grato por isso, mas desde os sete anos de idade passei a ter ódio dos humanos em geral. Apenas porque parece muito fácil se relacionar e ter empatia. Apenas porque eu amo e sinto demais por todas as pessoas, eu acho. Obrigado do fundo de meu nauseado estômago queimando por suas cartas e sua preocupação ao longo dos anos. Eu sou mesmo um bebê errático e triste! Não tenho mais paixão, então lembrem, é melhor queimar do que se apagar aos poucos. Paz, amor, empatia. Kurt Cobain
Frances e Courtney, estarei em seu altar. Por favor, vá em frente, Courtney, por Frances. Pela vida dela, que vai ser tão mais feliz sem mim.
EU TE AMO, EU TE AMO!


sandro borelli

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

MORTE, Schopenhauer

Admito que se o terror da morte se deve à idéia que temos do não-ser, igual terror nos deveria dominar ao pensar-mos na época em que ainda não existíamos, pois não há dúvida de que o "não-ser" que segue à morte não pode ser diferente do "não-ser" que precede a vida e, portanto, não pode ser mais temível.

Enquanto não existíamos, a eternidade seguia seu curso. Isto, porém, não nos assusta. O que achamos cruel e insuportável é o pensamento de que depois do curto interregno desta existência efêmera, deve vir uma segunda eternidade, durante a qual também não existimos. Será que esta ânsia de viver decorre do fato de havermos gostado da vida, de tê-la achado amável? Indiscutivelmente, não, pois, em geral as provações suportadas nos deveriam predispor antes a lamentar profundamente o paraíso perdido do "não-ser".

A ilusão que abrigamos acerca da imortalidade da alma une-se sempre a de um mundo melhor, o que demonstra claramente que o nosso aqui não vale grande coisa. O problema sobre o que nos acontecerá depois da morte já foi exaustivamente tratado, em livros e conversas, e tratado mais do que o problema do que teríamos sido antes de nascer. Todavia, teoricamente, ambos os problemas despertam o mesmo interesse e oferecem a mesma razão de ser, e quem resolvesse um deles, não teria dúvidas quanto à solução do outro.

Quantas admiráveis declamações temos ouvido sobre a repugnância de admitir que o espírito humano, que abarca o Universo, e que, em suas sublimes concepções, se eleva tão alto, há de acabar sepultado com o corpo. Mas o que ninguém se lembra de dizer é que esse espírito humano deixou passar toda uma eternidade antes de aparecer sobre a Terra, com todos os seus atributos, nem que o mundo, durante toda essa eternidade, tenha passado sem ele.

Não conheço problema que mais se imponha a qualquer inteligência livre de preocupações arbitrárias do que este: - antes de meu nascimento, transcorreu um tempo infinito. Que era eu, durante todo esse tempo?... A eternidade sem mim, "a parte post", não deveria ser mais aterradora do que a eternidade sem mim "a parte ante", uma vez que uma não se diferencia da outra senão pelo sonho efêmero da vida... "A morte não nos importa" - ensina Epicuro. E explica: - "Enquanto existimos, a morte não existe, e quando ela chega, não existimos nós".

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GUSTAVE DORÉ
 
Arthur Schopenhauer (1788-1860) é o último dos idealistas alemães, de resto independente e em contínua polêmica com o grupo. Nasceu em Dantzig, de pai rico e mãe culta. Iniciou-se no comércio, que logo abandonou, para entregar-se à filosofia, que estudou em Goettingen e em Berlim. Espirito agudo e engenhoso, com acentuado gosto literário, terminou sua obra-prima. "O Mundo Como Vontade de Representação", aos 30 anos. Deixou Berlim durante a epidemia de cólera que matou Hegel, mudando-se para Frankfurt. Sua filosofia casuística, pessimista e agressiva, foi servida por uma forma literária brilhante. Nos últimos anos da vida, tornou-se famoso e exerceu grande influência no pensamento de seu tempo. É de seu livro "O Mundo Como Vontade de Representação" o texto que hoje publicamos.
 
 
postado por Maíra Barbosa

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

FUNERAL DE UM LAVRADOR

 maíra barbosa

Caveira (Cruz e Sousa)

I
Olhos que foram olhos, dois buracos
agora fundos, no ondular da poeira...
Nem negros, nem azuis e nem opacos.
Caveira!

II
Nariz de linhas, correções audazes,
de expressão aquilina e feiticeira,
onde os olfatos virginais, falazes?!
Caveira! Caveira!!

III
Boca de dentes límpidos e finos,
de curva leve, original, ligeira,
que é feito dos teus risos cristalinos?!
Caveira! Caveira!! Caveira!! 
                                                                                       
Bandeira de Mello , Enterro no sertão, 1984



postado por maíra barbosa

domingo, 19 de dezembro de 2010

Morte nos porões da barbárie

OS VERSOS DA MORTE
A morte nos faz cair em seu alçapão,
É uma mão que nos agarra
E nunca mais nos solta. 
 A morte para todos faz capa escura,
E faz da terra uma toalha;
Sem distinção ela nos serve,
Põe os segredos a descoberto,
A morte liberta o escravo,
A morte submete rei e papa
E paga a cada um seu salário,
E devolve ao pobre o que ele perde
E toma do rico o que ele abocanha.

(Hélinand de Froidmont. Os Versos da Morte. Poema do século XII. São Paulo : Ateliê Editorial / Editora Imaginário, 1996. 50, vv. 361-372)



ETNIA - Morte nos porões da barbárie (Ana D'angelis)


Os segredos do cemitério de escravos no caminho da Gamboa

O sonho de voltar para junto dos seus antepassados, na África, não se concretizou nem mesmo depois da morte para 6.119 negros trazidos à força no século XIX para serem vendidos em leilões na Rua Direita, atual Primeiro de Março. A morte nos porões dos navios negreiros ou à luz do dia, diante da multidão, quando doentes e atordoados eram arrastados ao mercado de escravos tão logo desembarcavam no Porto do Rio de Janeiro, apenas garantiu a esses africanos morrer antes de serem escravizados no Brasil.
Pela tradição religiosa dos negros bantos, cultuada por esse contingente de africanos, vindos de várias partes da África Central, como Luanda, Moçambique, Bengala, Congo, o sepultamento em cova funda era parte importante do ritual para o retorno ao seu continente e o reencontro com os entes queridos. Mas o destino final daqueles que não resistiam aos sofrimentos da viagem era uma área de 110 m2, situada no antigo caminho da Gamboa, conhecida como a Rua do Cemitério, mais tarde Rua da Harmonia, hoje Rua Pedro Ernesto.
Ali, à flor da terra, os corpos nus eram jogados uns sobre os outros e queimados uma vez por semana. Desde 1996, jazem em uma caixa de papelão no Instituto de Arqueologia Brasileiro (IAB) fragmentos de ossos que correspondem a 28 esqueletos completos de pretos novos, os recém-chegados da África, cuja idade variava entre 3 e 25 anos, do sexo masculino e feminino.



IMAGENS DE UM GENOCÍDIO
Ossadas de negros encontradas em escavações na Gamboa, zona portuária do Rio de Janeiro

Cemitério foi descoberto por acaso
A confirmação da existência do Cemitério dos Pretos Novos, no Rio de Janeiro, o único do qual se tem notícia na América, só foi possível graças ao voluntarismo do casal Ana Maria Merced e Petrúcio Guimarães, e às pesquisas de Júlio César Medeiros da Silva Pereira, na época um estudante de História da Uerj, atualmente mestre em História Social pela UFRJ. Proprietários da casa nº 36 na Rua Pedro Ernesto – uma típica construção do século XVIII, sem banheiro e rede de esgoto, que abrigou famílias pobres e negros libertos, na zona portuária –, Merced e Petrúcio iniciaram, em 1996, escavações para colocação de estruturas de ferro que permitiria construir cômodos em cima. Mas para espanto dos pedreiros, ossos misturados a fragmentos, tais como miçangas de vidro, artefatos de ferro e pedaços de cerâmica, começaram a saltar da terra. “A firma de engenharia que fez a sondagem do solo constatou que de 20 cm a dois metros de profundidade só tinha ossos”, contou Merced.
E a lenda que corria de que no bairro existiu um cemitério de escravos se confirmou. O achado foi informado à Prefeitura e, através de mapas antigos do município, duas arqueólogas constataram que abaixo não só da casa dos Guimarães, como numa área de 110 m2, centenas de africanos encontraram sua última morada. As pesquisas de Júlio César, primeiro para a monografia e depois para a dissertação de mestrado, complementaram a informação histórica: de 1779 a 1831, 6.119 corpos de “pretos novos” foram enterrados naquele local. “No Museu da Cúria Metropolitana encontrei um livro de óbitos da Freguesia de Santa Rita, que respondia à época pelo cemitério, onde estão registrados os nomes dos navios, as nações ou os portos de origem, os donos e as idades dos ‘escravos novos’ desse período, e até as marcas que recebiam nos navios negreiros”, confirmou o historiador, que se uniu a Merced e Petrúcio ao ler sobre a descoberta do sítio arqueológico numa nota de rodapé de jornal.



SUPLÍCIO. Cerca de 400 escravos eram transportados nos navios negreiros, misturados a cargas de todos os tipos.
Eram transportados nos porões deitados dois a dois, mulheres, idosos e crianças


Escondendo a vergonha
Cemitérios para negros, pobres indigentes
Os documentos pesquisados também revelaram que no século XVII um pequeno cemitério junto ao Morro do Castelo, nos fundos da Santa Casa da Misericórdia, destinava-se aos escravos africanos, seus descendentes, indigentes e pobres que morriam no hospital. Como em 1700 este cemitério já não comportava o grande número de sepultamento de escravos, o governador do Rio de Janeiro, Ayres de Saldanha Albuquerque Coutinho Matos e Noronha (1719-1725), determinou que fosse criado um cemitério somente para pretos novos no largo da Igreja de Santa Rita, recém-criada, o que foi feito. Por volta de 1769, o vice-rei, Marquês do Lavradio (1769-1779), ordenou a mudança do mercado da Rua Direita, na Praça XV, para a Rua do Valongo (hoje Camerino). Ele não queria que os escravos no estado lastimável em que se achavam ao desembarcar fossem vistos na entrada principal da cidade. E quando o mercado de escravos foi transferido para a Praia do Valongo, o Cemitério dos Pretos Novos foi junto, porque a proximidade com o porto facilitava o transporte dos corpos.

Clamor da sociedade – Em 1821, o Cemitério dos Pretos Novos já estava cercado de casas, e os moradores começaram a reclamar com o príncipe regente D. Pedro e outras autoridades dos “males à saúde” e do mau cheiro que exalava dos corpos insepultos. De acordo com documentos encontrados por Júlio César no Arquivo-Geral da Cidade, no dia 13 de março de 1830 foi feito o último sepultamento no Cemitério dos Pretos Novos.
Na opinião do historiador, o fim do cemitério não foi determinado apenas pela pressão higienista, clamor da imprensa e dos moradores. “A hipótese mais aceita”, disse, “é a de que, após o acordo que proibia o tráfico negreiro firmado com a Inglaterra (a famosa “lei para inglês ver”), o Brasil não teria como justificar a existência do cemitério de recém-chegados da África.”

Irmandades – Segundo Júlio César, “o Cemitério dos Pretos Novos é exemplo dos muitos sofrimentos impostos por um sistema escravista, em que milhares foram sepultados sem ter o direito aos preceitos das culturas tradicionais africanas”. Os que conseguiram sobreviver, no entanto, se filiaram a irmandades negras, que arrecadavam recursos e garantiam aos compatriotas enterros em condições mais dignas.


Um novo sentido à vida
A descoberta do sítio arqueológico sob o chão que pisava mudou completamente a vida da família Guimarães: Merced, Petrúcio e três filhas. Até 1998, eles conviveram com buracos em toda a área interna e nas laterais da casa, e com gente entrando e saindo. Quando as pedras começaram a rolar das paredes escavadas, o jeito foi mudar para o auditório da sua pequena empresa de prestação de serviços ao Porto do Rio, lá mesmo na Gamboa. E a todo tempo ouviam da prefeitura que a casa seria desapropriada.
Em 2000, não suportando mais a situação, os Guimarães retomaram as obras na casa. “Durante quatro meses eu e minhas filhas adolescentes peneiramos terra dos buracos e separamos ossos. Em 2001, as arqueólogas sumiram e até hoje ninguém mais voltou”, disse Merced. Os ossos foram levados para o IAB, e lá permanecem em caixas de papelão. Oficialmente, os estudos sobre o sítio arqueológico foram esquecidos.
Apesar de todos os transtornos, Merced se apaixonou pela história dos escravos enterrados na Gamboa e decidiu, sem contar com ajuda oficial ou de ONGs, expor as fotos dos ossos e artefatos desenterrados em grandes painéis na sua própria sala de visitas e abrir para visitação pública. Mais tarde, comprou duas lojas coladas à sua casa e criou o Instituto de Pesquisas e Memorial dos Pretos Novos, que tem como diretores pessoas ligadas ao movimento negro da cidade, como Antonio Carlos Rodrigues da Silva. O espaço se transformou numa referência para esses militantes, artesãos e artistas plásticos. Na região, que além da Gamboa abriga os bairros da Saúde, Santo Cristo e os Morros da Previdência e da Conceição, a casa de nº 36 é uma referência da cultura afro, onde sempre são realizadas festas e cultos africanos, e lugar seguro para guardar objetos e outras relíquias da escravidão no Brasil. É comum se chegar lá e encontrar pessoas como Maria da Graça Lau e Cristina Sebastiana, legítimas representantes de grupos de jongo no Estado do Rio de Janeiro. Respira-se naqueles cômodos um cheiro forte de amor e fraternidade.



http://www.youtube.com/watch?v=o8ZMi2e_xVM&feature=related
                                                                                                                                    


                                                                                                                                             postado por: Maíra Barbosa

sábado, 18 de dezembro de 2010

Simbolismo

“O artista é um homem que não pode se conformar com a renúncia à satisfação das pulsões que a realidade exige. Toda arte é o desenho do desejo. O artista dá livre vazão a seus desejos eróticos e fantasias A realidade interdita o tempo todo. Desde coação social até a gramática.  A obra de arte se caracteriza pela transgressão, por não obedecer à gramática.”    
Sigmund Freud


Pesquisando novas realidades
O final do século XIX foi um período bastante interessante e rico da história. As pesquisas em arte a partir de então se desenvolveram num ritmo acelerado. Tudo que acontecia parecia estimular os artistas: transformações, desenvolvimento da ciência, conflitos. Nessa época Freud já havia criado a psicanálise e apontado para a importância dos sonhos e dos mitos. A influência dessa teoria no campo artístico resultou no Simbolismo, movimento que explorava  o mundo imaginário, repleto de signos misteriosos.
O Simbolismo foi um movimento lançado por um poeta de origem grega, Jean Moreas, em 1886. Pretendia ser uma crítica à sociedade científica e industrial, desenvolvendo uma arte baseada nos significados íntimos da imaginação humana. Nessa arte, destacaram-se Redon e Denis Klimt, na Europa, e Eliseu D’Angelo Visconti, no Brasil.
Filosofia da composição de Cruz e Sousa
A arte poética de João Cruz e Sousa pertence à escola simbolista, que começou a manifestar-se entre nós no fim do decênio de 1880, mas que instaurou decisivamente em 1893, quando o poeta publicou Missal, poemas em prosa, e Broquéis, em versos. Para Antonio Candido e José A. Castello,  o Simbolismo se opõe tanto ao Realismo quanto ao Parnasianismo, situando-se muito próximo das orientações românticas, de que é em parte uma revivescência. Não aceitando a separação entre sujeito e objeto, entre artista e assunto, para ele objetivo e subjetivo se fundem, pois o mundo e a alma têm afinidades misteriosas, e as coisas mais díspares podem revelar um parentesco inesperado.”

COSTA, Cristina. Questões de arte. Editora Moderna. 2004;
GONÇALVES, José Aguinaldo. Literatura Comentada.Nova Cultural,1988.
postado por maíra barbosa

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Pintores do Simbolismo

REDAN



"Parsifal"

"Orfeu"

                                                                                      "The of fall phaeton"




FRANZ VON STUCK




"O pecado"






CARLOS SCHWABE






PAUL SERUSIER


"Celtic"






MAURICE DENIS



"Procession Under the Trees"

KIMT


"A morte e a Vida"


"The three ages of woman"


"Mermaids-Whitefish"




                                                                                                                                                                              Maíra Barbosa

FLORES

Olhei até ficar cansado
De ver os meus olhos no espelho
Chorei por ter despedaçado
As flores que estão no canteiro
Os punhos e os pulsos cortados
E o resto do meu corpo inteiro
Há flores cobrindo o telhado
E embaixo do meu travesseiro
Há flores por todos os lados
Há flores em tudo que eu vejo
A dor vai curar essas lástimas
O soro tem gosto de lágrimas
As flores têm cheiro de morte
A dor vai fechar esses cortes
FloresFlores
As flores de plástico não morrem

Titãs Composição: Tony Bellotto / Sérgio Britto / Charles Gavin / Paulo Miklos

Postado por vanessa macedo
Foto postada por maíra barbosa, imagem do trabalho"Anjos Negros"

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

DOR NEGRA

Prosa poética incluída em Evocações

E corno os Areais eternos sentissem fome e sentissem sede de flagelar, devorando com as suas mil bocas tórridas todas as rosas da Maldição e do Esquecimento infinito, lembraram-se, então, simbolicamente da África!
Sanguinolento e negro, de lavas e de trevas, de torturas e de lágrimas, como o estandarte mítico do Inferno, de signo de brasão de fogo e de signo de abutre de ferro, que existir é esse, que as pedras rejeitam, e pelo qual até mesmo as próprias estrelas choram em vão milenariamente?!
Que as estrelas e as pedras, horrivelmente mudas, impassíveis, já sem dúvida que por milênios se sensibilizaram diante da tua Dor inconcebível, Dor que de tanto ser Dor perdeu já a visão, o entendimento de o ser, tomou decerto outra ignota sensação da Dor, como um cego ingênito que de tanto e tanto abismo ter de cego sente e vê na Dor uma outra compreensão da Dor e olha e palpa, tateia um outro mundo de outra mais original, mais nova Dor.
O que canta Réquiem eterno e soluça e ulula, grita e ri risadas bufas e mortais no teu sangue, cálix sinistro dos calvários do teu corpo, é a Miséria humana, acorrentando-te a grilhões e metendo-te ferros em brasa pelo ventre, esmagando-te com o duro coturno egoístico das Civilizações, em nome, no nome falso e mascarado de uma ridícula e rota liberdade, e metendo-te ferros em brasa pela boca e metendo-te ferros em brasa pelos olhos e dançando e saltando macabramente sobre o lodo argiloso dos cemitérios do teu Sonho.
Três vezes sepultada, enterrada três vezes: na espécie, na barbaria e no deserto, devorada pelo incêndio solar como por ardente lepra sidérea, és a alma negra dos supremos gemidos, o nirvana negro, o rio grosso e torvo de todos os desesperados suspiros, o fantasma gigantesco e noturno da Desolação, a cordilheira monstruosa dos ais, múmia das múmias mortas, cristalização d'esfinges, agrilhetada na Raça e no Mundo para sofrer sem piedade a agonia de uma Dor sobre-humana, tão venenosa e formidável, que só ela bastaria para fazer enegrecer o sol, fundido convulsamente e espasmodicamente à lua na cópula tremenda dos eclipses da Morte, à hora em que os estranhos corcéis colossais da Destruição, da Devastação, pelo Infinito galopam, galopam, colossais, colossais, colossais...
Cruz e Sousa







Maíra Barbosa

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Cárcere das Almas



VISCONTI, Eliseu D’ Angelo (1866-1944)
Itália 1866 – Rio de Janeiro, RJ, 1944
“Cena Bíblica” - s/data
óleo sobre tela
32,0 x 40,5 cm



Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço, olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.
Tu se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo Espaço da Pureza.
Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!
Nesses silêncios solitários, graves,
Que chaveiro do Céu possui as chaves
Para abrir-vos as portas do Mistério?!




(Cruz e Sousa)








Maíra Barbosa

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O que acontece com nosso corpo após a morte


No instante da morte:

1. O coração pára.
2. A pele fica rígida e adquire uma cor acinzentada.
3. Todos os músculos se relaxam.
4. A bexiga e intestinos de esvaziam.
5. A temperatura corporal cai normalmente 0,83ºC por hora a não ser que tenha fatores externos que o impeça. O fígado é o órgão que se mantém quente durante mais tempo, pelo qual se costuma medir sua temperatura para estabelecer o momento da morte.
Aos 30 minutos:
6. A pele fica meio púrpura e com aspecto ceroso.
7. Os lábios, e as unhas dos dedos empalidecem pela ausência de sangue.
8. O sangue estagna nas partes baixas do corpo, formando uma mancha de cor púrpura escura que é chamada de lividez.
9. As mãos e os pés ficam azulados.
10. Os olhos começam a afundar para o interior do crânio.
Às 4 horas:
11. Começa a aparecer o rigor mortis.
12. O enrijecimento da pele e o estancamento do sangue contínuo.
13. O rigor mortis começa a esticar os músculos durante umas 24 horas, depois das quais o corpo recuperará seu estado relaxado.
Às 12 horas:
14. O corpo está em estado de rigor mortis total.
Às 24 horas:
15. Somente agora o corpo adquire a temperatura do ambiente que lhe rodeia.
16. Nos homens, morrem os espermatozóides.
17. A cabeça e o pescoço adquirem uma cor verde-azulado.
18. Esta mesma cor começa a estender-se ao resto do corpo.
19. Neste momento começa o forte cheiro de carne podre.
20. O rosto da pessoa fica essencialmente irreconhecível.
Aos 3 dias:
21. Os gases dos tecidos corporais formam grandes bolhas debaixo da pele. 22. A totalidade do corpo começa a inchar e crescer de forma grotesca. Este processo pode acelerar se a vítima encontra-se num ambiente cálido ou na água.
23. Os fluídos começam a gotejar por todos os orifícios corporais.
Às 3 semanas:
24. A pele, cabelo e unhas estão tão soltas que podem ser retiradas com facilidade.
25. A pele se racha e arrebenta em múltiplas zonas por causa da pressão dos gases internos.
26. A decomposição continuará até que não fique nada exceto os ossos, o qual pode demorar em torno de um mês em climas quentes e dois meses em climas frios.
27. Os dentes são com freqüência o único que ficam anos ou séculos depois, já que o esmalte dental é a substância corporal mais dura que existe. A mandíbula é assim mesmo a mais densa, pelo que geralmente também perdura.
Outubro 26, 2008 por dayrell108
Sandro Borelli

domingo, 12 de dezembro de 2010

INFERNO DE DANTE

                                                                     Gustave Doré

Panorama da época


No Brasil, a história de um preconceito
João da Cruz e Sousa viveu a sua primeira infância num solar provinciano e patriarcal do Segundo Império. O Brasil vivia um dos momentos mais importantes de sua história: a Guerra do Paraguai ( 1865 a 1870). Cruz tinha apenas quatro anos de idade quando seu protetor, marechal Guilherme Xavier de Sousa, foi para a guerra, antes libertando todos os escravos que possuía, incluindo, entre eles “mestre” Guilherme, pedreiro de profissão, pai do poeta. Neste sentido, pode-se dizer que o poeta foi privilegiado com relação aos demais escravos do país, que foram mantidos sob o jugo escravocrata ainda por muito tempo.
Em 1850, com a proibição do tráfico de escravos, criou-se condição para o início de uma possível campanha abolicionista no país. Mas, dessa data até a abolição, foram 38 anos de conflitos sócio-políticos e econômicos acontecendo paulatinamente. Portanto, de maneira mais efetiva, foi a partir de 1865 que alguns caminhos foram abertos para a evolução não só do movimento abolicionista, mas também republicano, no Brasil.
Durante a Guerra do Paraguai, os militares brasileiros entravam em contato com o regime republicano de outros países da América Latina. Por outro lado, o fato de muitos escravos terem participado como soldados gerou certa valorização do homem negro enquanto ser capaz de incorporar um sentimento patriótico perante a nação.
O escravo era considerado inferior, incapaz de uma evolução racional. Neste sentido, Cruz e Sousa, negro puro, foi durante seu desenvolvimento intelectual, em Desterro um verdadeiro incômodo que contrariava toda a opinião pública dos homens brancos. Andrade Muricy, comentando os tormentos sofridos pelo poeta, nos diz: “A trajetória escolar, em compensação, trouxe-lhe sempre renovados triunfos, porém, assinalados com o estigma da raça. Existe, dessa época, um atestado glorioso, passado em seu favor pelo sábio de renome universal Fritz Müller, amigo e correspondente de Darwin e Haeckel, com quem estudou dois ou três anos. Cruz e Souza ia fazer quinze anos quando o naturalista alemão escreveu a seu irmão:
“Esse preto representa para mim mais um reforço de minha velha opinião contrária ao ponto de vista dominante que vê no negro um ramo por toda parte (talvez sob todos os aspectos) inferior e incapaz de desenvolvimento racional por suas próprias forças”.
Negros Libertos?
Logicamente, todo intento pelo movimento abolicionista, perpassado por uma ideologia humanitária, não recaía nos reais problemas que diziam respeito ao homem negro, mas sim se pautava pela própria ótica ideológica do branco. Assim sendo, atingido o que se considerava o intento verdadeiro, a proclamação da República, a abolição dos escravos é dada como causa superada. Não existirá, a partir de 1988, nenhuma preocupação por parte dos dirigentes da nação em se promover uma política social capaz de favorecer a integração desse homem livre ao contexto social da época. A liberdade do negro não é respaldada por nenhuma política econômica. Seria uma liberdade para ociosidade e não para o fortalecimento social do país. Os suicídios de negros e mulatos, que começaram a ocorrer depois de 1850, aumentaram muito depois de 1888. Era uma resposta pessoal que se dava a tal postura branca. Um pouco antes da abolição eram muitos os levantes de escravos que já sofriam as mais variadas formas de pressões. São trágicas as condições de trabalho do negro. É a partir daí que se instaura o profundo preconceito de cor no Brasil. Dentre alguns autores, Lima Barreto expressa muito bem este problema na sua obra.
Quanto a Cruz e Sousa, sabe-se o quanto foi difícil manter-se no Rio de Janeiro, principalmente depois que constituiu família. Conseguiu no máximo a função de arquivista, recebendo quantia irrisória para o seu sustento. Em termos sociais, um pequeno fragmento de Andrade Muricy já nos ilustra muito bem: “ Fato é que, ao vir para o Rio de Janeiro, logo após a abolição dos escravos, ainda os seus companheiros, para evitar-lhe vexames, anunciavam em voz alta,de modo afetado, o seu nome, ao com ele entrarem nos cafés e confeitarias, segundo me narrou Emiliano Perneta: “ Entra, ó Cruz e Sousa! Entra, ó grande poeta!...”Lembrava o autor do jornal libertário Hércules: “Cruz e Sousa fitava-nos com olhares tristes, como quem pensasse: Que grandes canalhas!”
Toda essa força agressiva do cotidiano de sua vida foi flagrada e expressada no sublimar de sua obra. Vale aqui considerar os dizeres de Antonio Candido no tratamento da relação entre o artista e a sociedade em que vive: “Os elementos individuais adquirem significado social na medida em que as pessoas correspondem por sua vez que os indivíduos possam exprimir-se encontrando repercussão no grupo. As relações entre o artista e o grupo se pautam por esta circunstância e podem ser esquematizadas do seguinte modo: em primeiro lugar, há necessidade de um agente individual que tome a tarefa de criar ao apresentar a obra; em segundo lugar, ele é ou não reconhecido como criador ou intérprete pela sociedade, e o destino da obra está ligado a esta circunstância; em terceiro lugar, ele utiliza a obra, assim marcada pela sociedade, como veículo das suas aspirações individuais mais profundas” (Literatura e Sociedade, p.25). A conexão da palavra poética de Cruz e Sousa e seu tempo é de canto doloroso dentro da nebulosidade simbolista. Seu tempo foi de repúdio, que o sussurro de seu canto tão bem soube revelar.
GONÇALVES, José Aguinaldo. Literatura Comentada.São Paulo: Nova Cultural, 1988. (p.11-22)