terça-feira, 17 de maio de 2011

VOZES da MORTE poema de augusto dos anjos

Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura,
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!
Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos!
E a podridão, meu velho! E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!
Não morrerão, porém, tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,
Na multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte, inda teremos filhos

quarta-feira, 11 de maio de 2011

É doce morrer no mar (Dorival Caymmi)

É doce morrer no mar,
Nas ondas verdes do mar
 A noite que ele não veio foi,
Foi de tristeza pra mim
Saveiro voltou sozinho
Triste noite foi pra mim
É doce...
Saveiro partiu de noite, foi
Madrugada não voltou
O marinheiro bonito
Sereia do mar levou.
É doce...
Nas ondas verdes do mar, meu bem
Ele se foi afogar
Fez sua cama de noivo
No colo de Iemanjá

FOTOS: Jerry Uelsmann
  Piano e arranjo: Benjamin Taubkin
Sax barítono: Teco Cardoso
Baixo acústico: Rodolfo Stroeter
Percussão: Caíto Marcondes


segunda-feira, 9 de maio de 2011

Expandindo novos olhares...

 'Produto Perecível Laico' Ninho Sansacroma 30/04 e 01/05

SAIA DO CENTRO por Inês Correa
 Piso de fundo de garrafa na entrada do prédio

 Fachada externa da Fábrica de Criatividade

Porta de entrada dos banheiros


É muito longe? Depende do ponto de vista. Se você mora na Lapa, na Vila Olympia, o Capão Redondo é longe. Se mora no Capão Redondo, a Lapa, a Vila é que são. São Paulo é uma cidade grande, uma metrópole. As distâncias aumentam em função da falta de um transporte coletivo melhor. De carro, congestionamentos são previstos. De ônibus e metrô tem gente, muita gente.

Havia tempo que pretendia ir ao Capão Redondo conhecer a Fábrica de Criatividade. Tanto tempo, que ela mudou de nome, hoje é o Ninho Sansacroma e direção geral e artística, atualmente nas mãos de Gal Martins, responsável também pela Cia. Sansacroma. Conheci a Gal no Oxigênio e trouxe algumas palavras dela aqui no Corpoemimagem, em 2009. Sempre que a reencontrava dizia que iria no Capão. Surgiu a oportunidade de fotografar o novo trabalho, Produto Perecível Laico, do Sandro Borelli, da Cia. Borelli, que vai estrear no Semanas da Dança, no Centro Cultural São Paulo e a "prévia" aconteceu lá no ninho, no Capão. 

Ao chegar a primeira surpresa, o prédio. Comentei com a Gal e ela disse que não era a única a me surpreender. Um prédio bem estruturado e funcionando, cheio de meninos e meninas estudando. Se destaca de tudo o que há em volta (veja a foto acima). Ao entrar é preciso atravessar uma "passarela" feita de fundos de garrafa. Olhei para baixo e não notei de cara não. Quem me fez olhar de novo foi a Cristiane Klein, produtora cultural. Não resisti e fiz a foto também. A porta de entrada parece aço com um monte de bolinha-de-gude brilhando. As portas do banheiro podem ser vistas na foto. Outros detalhes, muitos outros, cada um, cada qual, só indo até lá.  

Aliás resolvi escrever este post por alguns motivos. O primeiro foi para mostrar outro ponto de vista da cidade, fora do centro dela, sair do centro. Estou considerando centro não o centro velho mas os bairros considerados centrais. Não fui até lá na periferia fotografar os "gatos" nem a violência. Não tenho nada contra isso. Fazer tais fotos é uma forma de denúncia. Aqui as fotos são para anunciar talvez, não denunciar. Anunciar outras imagens que existem dentro da cidade de São Paulo. Resolvi trazer uma perspectiva que pode ser apresentada. Uma periferia com um perfil existindo, que está acontecendo lá. agora.  Uma periferia que se organiza. Violência, para ver, não é preciso ir até a periferia não. Basta sair de casa. Pode acontecer em qualquer esquina. Um pouco mais aqui, um pouco menos ali. É uma questão que precisa ser resolvida e pode, com educação, com respeito e melhor distribuição de renda. Mais, muito mais, é claro. São caminhos longos e cheios de congestionamentos...Existe um bom motivo para ir ao Capão Redondo conhecer o Ninho Sansacroma. O Circuito Vozes do Corpo.A programação completa está aqui :
http://ciasansacroma.wordpress.com/2011/04/15/programacao-circuito-vozes-do-corpo/.
Começa quinta-feira, dia 5. 
Saia de casa. Vá conhecer sua cidade e se surpreender com ela.
fonte:http://www.corpoemimagem.blogspot.com/

segunda-feira, 2 de maio de 2011

TENSÃO E TEATRO PÓS-DRAMÁTICO

Trecho extraído do capítulo Tensão e Artes Cênicas do livro Taanteatro – teatro coreográfico de tensões
O teórico teatral Hans-Thies Lehmann lançou, com seu livro O teatro pós-dramático, uma tentativa de descrever e conceituar o desenvolvimento do teatro a partir de 1970. No lugar de pós-moderno, termo que procura abarcar a complexidade das manifestações culturais de cerca de três décadas (1970 a 1990), Lehmann propõe o conceito pós-dramático, de abrangência mais restrita, voltada exclusivamente para as artes cênicas. O autor admite a proximidade do teatro pós-dramático com o teatro energético, esboçado pelo filósofo francês Jean-François Lyotard que, por sua vez, situa-se nos arredores do teatro da crueldade de Artaud. O teatro energético é concebido como teatro de “forças, intensidades, afetos, presenças”. Teatro além do drama, do significado e da representação – o que, de acordo com Lehmann, não impede a presença da representação, mas do domínio de sua lógica. O teatro pós-dramático é caracterizado pelo “desaparecimento do princípio de narração, de figuração e de ordem da fábula” e pela “impossibilidade de fornecer sentido e síntese”, apontando apenas para perspectivas parciais. Seus elementos formais recorrentes são: fragmentação, deformação, subversão, transgressão, descontinuidade, não-textualidade, plurimedialidade e a anulação de fronteiras entre linguagens. O texto teatral não é mais a referência central e determinante da encenação, no lugar do discurso aparecem a meditação, o ritmo, as sonoridades, o espaço. É um teatro do gesto e do movimento. Lehmann resume essas tendências como a despedida das tradições da forma dramática, despedida que, no entanto, não exclui as estéticas mais antigas: “o teatro pós-dramático é essencialmente, mas não exclusivamente, ligado ao teatro experimental, disposto ao risco artístico”. É work in progress, adepto da desconstrução ou dissolução de narrativas, da mistura e simbiose de linguagens ou códigos de encenação. No teatro pós-dramático o absolutismo do corpo, que burla o sentido através da sensualidade, vive um “deslocamento da semântica para a sintaxe”. A realidade dessemantizada do corpo, isto é, o corpo auto-referencial e sua observação se tornam objeto estético-teatral. Apesar de todos os esforços para domesticar o potencial expressivo do corpo numa lógica, gramática, retórica, diz Lehmann, o corpo se tornou o centro do teatro, o signo central que “nega o serviço do significado” e o ponto irredutível da cena onde se realiza o fading de qualquer significar em favor da presença, da fascinação e da irradiação de “uma corporalidade auto-suficiente exposta em suas intensidades e potenciais gestuais – em sua presença aurática e em suas tensões internas e externamente transmitidas”. Some, junto com a representação, a projeção do corpo ideal; surge, com absoluto poder de incorporação de todos os outros discursos, o corpo intenso. O corpo, ao mostrar nada além de si mesmo, ao abandonar a sua significação voltando-se para o gesto livre de sentido, [...] torna-se tema único, [...] com uma significação que se refere à existência social inteira. Teatro pós-dramático é um teatro de potencialidades do corpo, não através de sua capacidade de significar, mas através de sua presença, da autodramatização da físis e do processo corporal que acontece entre corpos. Quando textos e ações cênicas são percebidos de acordo com o modelo da ação tensiva do drama clássico, as condições próprias da percepção teatral recuam: a presença do acontecimento, a semioticidade própria do corpo, os gestos e movimentos dos performers, as estruturas de composição formais da língua enquanto paisagem sonora, as qualidades inesgotáveis do visual além da representação, o desenrolar musical-rítmico com seu tempo próprio etc. – justamente os momentos que constituem a forma do teatro contemporâneo. No teatro pós-dramático, a tensão dramática clássica é substituída pela realidade da tensão corporal.

foto: vitor vieira
produto perecível laico
cia borelli abr2011
post.maíra barbosa