sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Chê Guevara - Hasta la victoria siempre

"Agora, esta massa anônima, esta América de cor, sombria e taciturna, que canta em todo o continente com a mesma tristeza e desilusão, agora esta massa é a que começa a entrar definitivamente na sua própria história, começa a escrever com seu sangue, começa a sofrer e a morrer. Porque agora pelos campos e as montanhas da América, pelas encostas das suas serras, pelas suas planícies e suas florestas, entre a solidão ou o tráfego das cidades, nas costas dos grandes oceanos e rios, começa a estremecer este mundo cheio de corações, com os punhos quentes de desejo de morrer pelos outros, de conquistar os seus direitos, negados durante quase 500 anos, por uns e por outros. Porque esta grande humanidade disse "basta!" e começou a avançar. E a sua marcha de gigante, já não pode parar até conquistar a verdadeira independência, por aqueles que morreram mais uma vez inutilmente. Agora, de qualquer forma, aqueles que vão morrer, morrerão como os de Cuba, na Playa Giron, morrerão pela sua única, verdadeira e irrenunciável independência."


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Francisca Julia e Philadelpho E. Munster dançam no Cemitério do Araçá



História da "Musa Impassível", que hoje se encontra na Pinacoteca

A escultura foi feita por Victor Brecheret, também responsável pelo Monumento as Bandeiras, que fica em frente ao Parque Ibirapuera. Antes de ir para a Pinacoteca, a Musa adornava o túmulo da poetisa Francisca Júlia, no Cemitério do Araçá (na Dr. Arnaldo), que faleceu no dia 1 de novembro de 1920.


Francisca Júlia da Silva nasceu em 1871 na antiga Vila de Xiririca, hoje município de Eldorado, interior de São Paulo. Ela se mudou aos 8 anos de idade para São Paulo, e já demonstrava um grande talento com as palavras. Aos 14 anos começou a escrever versos para o jornal O Estado de S.Paulo, Correio Paulistano e para o Diário Popular.

Seu primeiro livro, “Mármores”, foi lançado em 1895, com muitos elogios da crítica - e não custa lembrar que era uma época em que as mulheres tinham pouca ou nenhuma voz. Nesse livro se encontra um poema, Musa Impassível, reproduzido aqui embaixo.


Após lançar em 1899 o "Livro da Infância", para rede de escolas públicas de São Paulo, a poetisa se tornou precursora da literatura infantil no Brasil. Em 1909 ela se casou com o telegrafista da Estrada de Ferro Central do Brasil, Filadelfo Edmundo Munster, que foi diagnosticado com tuberculose em 1916 e veio a falecer em 1920.

Poucas horas após o seu falecimento, Francisca Júlia foi encontrada morta no quarto do marido. Apesar de ter sido cogitada a hipótese de suicídio, a história que seguiu era de que a poetisa havia morrido de amor.

Após a sua morte, um grupo de intelectuais liderado pelo senador e mecenas José Freitas Valle, entrou em contato com o Presidente do Estado de São Paulo, Washington Luís, para encomendar uma escultura que estaria à frente do túmulo da poetisa. Com a autorização em mãos, Freitas Valle contactou o jovem escultor brasileiro que estudava em Paris, Victor Brecheret.

"Brecheret realizou o trabalho de 1921 a 1923 em Paris. O resultado não poderia ser melhor. Uma linda escultura envolvida por sensualidade. Olhos fechados que nos remete a querer esquecer a dor da morte. Seios grandes e fartos para afirmar a importância da mulher na sociedade. Dedos e braços longos e delicados simbolizando a força e a superioridade de uma mulher que abriu segmento na literatura feminina. Nascia a Musa Impassível"

A escultura foi instalada em seu túmulo em 1923 e por ali residiu até começarem ser percebidos os danos causados pela urbanização da cidade, principalmente pela chuva ácida. Em 13 de dezembro de 2006, 83 anos depois de sua instalação, a escultura foi retirada com a ajuda de 15 pessoas e um guindaste.


Saindo do mundo dos mortos para o mundo dos vivos, a escultura chega finalmente à Pinacoteca, e no lugar da escultura original, foi colocada uma réplica em bronze.


terça-feira, 3 de setembro de 2013

"Le Baiser" (1982) - Joel-Peter Witkin



Joel-Peter Witkin (nascido em 13 de setembro, 1939) é um fotógrafo americano fotógrafo que vive em Albuquerque, Novo México. Sua obra, muitas vezes lida com temas como morte, cadáveres (às vezes desmembrado partes dos mesmos) e várias pessoas estranhas, como anões, transexuais, hermafroditas e pessoas deformadas fisicamente. Os quadros de Witkin muitas vezes lembram episódios religiosos ou pinturas clássicas.

Witkin nasceu de um pai judeu e mãe católica romana. Seu irmão gêmeo, Jerome Witkin, e filho, Kersen Witkin, também são pintores. Os pais de Witkin se divorciaram quando ele era jovem, porque eles foram incapazes de superar suas diferenças religiosas. Entre 1961 e 1964 ele era um fotógrafo de guerra e documentava a guerra do Vietnã. Em 1967 se tornou o fotógrafo oficial da Cidade Paredes. Ele participou da Cooper Union, em Nova York, onde estudou escultura, atingindo um grau de Bacharel em Artes em 1974. Depois a Universidade de Columbia concedeu-lhe uma bolsa de estudos. Ele terminou seus estudos na Universidade do Novo México em Albuquerque, onde se tornou mestre de Belas Artes.

Witkin diz que sua visão e sensibilidade brotam de um episódio que testemunhou quando criança, um acidente de automóvel na frente de sua casa em que uma menina foi decapitada.

"Foi o que aconteceu em um domingo, quando minha mãe estava acompanhando o meu irmão gêmeo e descendo comigo os degraus do cortiço onde morávamos. Nós estávamos indo para a igreja. Enquanto caminhava pelo corredor até a entrada do edifício, ouvimos um estrondo incrível misturado com gritos e gritos de socorro. O acidente envolveu três carros, todos com as famílias deles. De alguma forma, no meio da confusão, eu já não estava segurando a mão da minha mãe. No lugar onde eu estava na calçada, eu podia ver algo rolando de um dos carros que capotou. Aquilo parou na calçada onde eu estava. Era a cabeça de uma menina. Abaixei-me para tocar o rosto, para falar com aquilo - mas antes que eu pudesse tocá-lo alguém me levou"

Ele diz que as dificuldades de sua família também influenciaram a sua obra. Seu artista favorito é Giotto.

As obras de Witkin que usam cadáveres tiveram que ser criadas no México, a fim de contornar as leis restritivas dos Estados Unidos. Por causa da transgressão, natureza do conteúdo de suas imagens, as suas obras têm sido rotulados de exploração e, por vezes, chocaram a opinião pública.

Suas técnicas incluem riscar o negativo, branquear ou tonificar a impressão, usando uma técnica de impressão chamada hands-in-the-chemicals. Esta experimentação começou depois de ver um ambrotype do século 19 de uma mulher e seu ex-amante que tinha sido riscado do quadro.

DOCUMENTÁRIO
Em julho de 2011, começaram as filmagens do documentário de longa metragem Joel-Peter Witkin: um olho objetivo. O filme, dirigido por Thomas Marino, lança um olhar profundo e introspectivo na vida e fotografias de Witkin. Junto com todas as novas entrevistas em profundidade com Joel-Peter Witkin, o filme apresenta entrevistas de galeristas, artistas proeminentes, fotógrafos e estudiosos que compartilham visão sobre o impacto do trabalho de Witkin e influência na cultura moderna. As filmagens ocorreram em Albuquerque, Los Angeles, Nova York e Paris. O filme foi lançado em 06 de julho de 2013 para download digital e streaming/rental. O filme fará parte das coleções permanentes na Bibliothèque Nationale de France, em Paris, e a Biblioteca Nacional de Chile, em Santiago.


sábado, 20 de julho de 2013

Impressões - Eliana Teruel


Prezado Sandro
Não te conheço pessoalmente, mas gostaria de te dizer que o espetáculo que vi hoje, 19/07, no Kasulo - Colonia Penal, foi de uma beleza desoladora...
A obra começa apresentando a "normalidade" do anormal, vai num crescendo que te embrulha o estômago, pois te fisga em um estranhamento que corrói por dentro; o torturador é um ser que come, bebe e vive um cotidiano que é o nosso, com o qual nos identificamos totalmente, enquanto o ser submisso deixa de ser, se coisifica, não só se acostuma à dor, mas faz dela sua relação com a vida, realmente tudo muito angustiante.
O elenco competentíssimo, todos eles, com destaque da atriz/bailarina que sofre a tortura, cujo fôlego e treinamento nos faz ficar sem ar e vivenciar um paradoxo: queremos ao mesmo tempo que tudo termine rápido e ao mesmo tempo que não termine nunca.
Realmente um trabalho orgânico de grande importância nestes dias em que a sociedade respalda a violência cometida com quem não se parece à ela. Um corpo que se entrega para ser devorado, devoradores à procura de novos corpos-coisa.
Tudo muito impactante, tudo muito real.
Parabéns!

Eliana Teruel, atriz

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Impressões - Vanessa Macedo

Um relato sobre Colônia Penal, da Cia Borelli

Cada vez que vou ao teatro tenho o desejo de ser capturada. Não sei exatamente para que lugar, mas conheço a sua potência em nos invadir. Isso tem sido coisa rara, muito rara. Por isso tive vontade de falar e agradecer à Cia Borelli pelo trabalho Colônia Penal. 

São lágrimas secas que chegam sem avisar e não fazem alarde. Ao que tudo indica, contradizendo algumas fortes tendências da arte contemporânea, talvez possamos dizer que essa obra se constrói numa narrativa linear, ou até mesmo literal. Isso porque tem um foco claro, dispensa release, conversa pós-espetáculo, ou o famoso “não entendi nada”, daqueles que não se sentem contemplados ao assistir dança contemporânea. Talvez não nos dê aquela sensação de múltiplas possibilidades de interpretação, como estamos nos acostumando a ter (até quando não reconhecemos possibilidade alguma). O que nos permite são várias portas de acesso a questionamentos sobre nós, seres humanos. Não só o sentimento de indignação, mas o sentimento de dor por nos reconhecermos ou nos estranharmos como parte dessa sociedade em que vivemos. Obrigada Sandro e Cia pela invasão no meu íntimo, pela ruptura sem anestesia.... tão necessária para nos sentirmos vivos.

Vanessa Macedo
07 07 2013

sábado, 6 de julho de 2013

sábado, 8 de junho de 2013

Crimes da ditadura: casal Abi-Eçab

Brasil. Crimes da ditadura de 64: Catarina e João Antônio dos Santos Abi-Eçab.
por R7-Record-Osmar Gomes da Silva
Viernes, 17 de Maio de 2013

O ex-militar Valdemar Martins de Oliveira prestou depoimento na Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” para o esclarecimento do assassinato do casal Catarina Abi-Eçab e João Antônio dos Santos Abi-Eçab.

A audiência pública aconteceu na quinta-feira (16/5) no auditório Tiradentes. O ex-agente é testemunha do assassinato de João Antonio e Catarina, casal de estudantes de filosofia da USP e militantes de esquerda da ALN, ocorrida em maio de 1968.

Valdemar Martins de Oliveira esclareceu fatos sobre João Antonio e Catarina até então falsos como atestado de óbito e morte. Segundo a versão divulgada à época, eles morreram no choque do automóvel que conduziam com explosivos na traseira de um caminhão, na altura do quilômetro 69, da Via Dutra, em Vassouras (RJ).


A EXECUÇÃO

Oliveira revelou como foi execução e apontou o coronel Fred Perdigão Pereira como o autor dos disparos.“Vi ele (Perdigão) atirar. Os dois estavam desacordados, já não reagiam. Ele disse que os dois não serviam mais para nada. Abaixou-se e deu um tiro na cabeça de cada um”, contou o ex-militar cujo depoimento tem o peso de testemunha ocular.

Integrante da equipe do coronel Perdigão, Oliveira havia participado da prisão do casal, numa residência em Vila Isabel, no Rio, e depois acompanhou a equipe de agentes até o local do assassinato, um sítio em São João do Meriti, provável centro de torturas e execução que, segundo ele, pertencia a um coronel do Exército. Os assassinos: Perdigão, um policial civil chamado Miro e o sargento Guilherme Pereira do Rosário, que 13 anos depois morreria no frustrado atentado a bomba no Riocentro. Morto em 1997, Perdigão teria feito os disparos à queima roupa, com um Colt 45, depois de várias sessões de tortura.

O casal Abi-Eçab era procurado como integrantes do comando da ALN e Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que um mês antes, em São Paulo haviam justiçado  o sinistro  Capitão Charles Chandler, agente da CIA e encarregado do treinamento aos verdugos da repressão. informações sobre o funcionamento dos aparatos de repressão política. 

Nome: Catarina Helena Abi-Eçab 
(Assassinada em 08 de novembro de 1968)
Data de nascimento: 29/01/1947
Local de nascimento: São Paulo - SP - Brasil
Organização Política: Ação Libertadora Nacional (ALN). 

Nome: João Antônio Santos Abi-Eçab 
(Assassinado em 08 de novembro de 1968)
Data de nascimento: 04 /06/ 1943
Local de nascimento: São Paulo - SP - Brasil
Organização Política: Ação Libertadora Nacional (ALN)


Todas as atividades realizadas na Assembleia Legislativa de São Paulo têm transmissão ao vivo pela internet. Acesse o link www.al.sp.gov.br/a-assembleia/tv-web* e escolha no box o Auditório onde ela está sendo realizada.*Atenção - é necessário utilizar o navegador Internet Explorer

COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”
55 11 3886-6227 / 3886-6228 – e-mail: comissaodaverdadesp@al.sp.gov.br
twitter.com/CEVerdad

Valdemar Martins de Oliveira, soldado paraquedista-1º lugar da turma do Batalhão de Paraquedistas do Exercito Brasileiro decide se afastar. Não aceita continuar participar do serviço sujo da tortura e assassinatos nos aparelhos de repressão da ditadura militar. Prevendo ser eliminado por saber nomes e “modus operandi” dos facínoras, desertou e fugiu.

Por muitos anos, Valdemar afirma  que tem procurado no Exercito Brasileiro por Reparação e Passar para a Reserva como soldado, o que até hoje tem sido negado. Neste vídeo reportagem ele revela da mesma forma que no depoimento na COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA” fatos sobre a morte dos companheiros Catarina Abi-Eçab e João Antônio dos Santos Abi-Eçab.


LINK DO VÍDEO: http://r7.com/XHE3


quinta-feira, 30 de maio de 2013

Eu Em Ti - Jung



































O encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambos estão transformados.
Carl Jung

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Impressões - Eu Em Ti em Bauru, SP

Pra poder continuar contigo
(por Laís Semis)



O cenário é um palco cercado por velas. Uma a uma elas são acesas pelo casal que surge nessa apresentação inspirada na obra de Ismael Nery, Eu em Ti. Quem interpreta é a Cia. Borelli de Dança, que carrega consigo 14 anos de experiência. É estabelecendo contato lentamente e em silêncio que se encontra o casal de bailarinos até entrar o instrumental dramático e a dança começar a ganhar forma.

Os corpos, sincronizados, ligados pela alma se completam e buscam se unir sempre  que se separam. Eles são leves, gravitando pelo poder do sentimento, tentando se reerguer e se encontrar, se dando suporte para executar seus corpos, dramas, dores, vontades e danças num balé de uma só alma. E que mesmo seguindo seus caminhos separados em quase uma hora de apresentação, acabam se encontrando e não resistindo a retomar o contato.

Se encaram pela primeira vez de verdade e se beijam. Um ponto de giro na música, que, mais suave, os leva de volta ao início. Os faz corpos-gangorra, faz a simetria dos ângulos corporais e se deixar guiar pela confiança no outro, tirar os pés do chão. E, num momento final, eles se afastam. Caminham lado a lado na inevitável separação do tempo e do espaço.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Documentário | Brasil: Relatório sobre a tortura


Documentário sobre a tortura no Brasil. Um relatório produzido para o mercado internacional, com declarações dos homens e mulheres que foram torturados no Brasil.

Você Também Pode Dar um Presunto Legal


O autor
Sérgio Muniz

Entre 1971 e 1973, ele reuniu materiais para um libelo que denunciasse o Esquadrão da Morte como um ensaio para os horrores da ditadura militar.

No roteiro escrito com Francisco Ramalho Jr., cabia um pouco de tudo: notícias de jornal, fotos de execução, transcrição de depoimentos sobre tortura, cenas de peças teatrais descontextualizadas, canções mensageiras, atores nos papéis do delegado Sérgio Fleury (chefe da famigerada Scuderie LeCocq) e do procurador Hélio Bicudo, afastado da investigação. Cenas da condecoração de Fleury pela Marinha, não divulgadas na época, foram obtidas clandestinamente de uma TV pelos bons ofícios de Vladimir Herzog. Enfim, uma peça de resistência política com ingredientes documentais e típico sabor da época. No título, uma piscadela irônica para o espectador: Você Também Pode Dar um Presunto Legal.

Amigos do diretor o aconselharam a não fazer exibições públicas na época, temerosos de que o título fosse sumariamente aplicado a ele. Mais de 30 anos depois, a partir de uma cópia VHS, Muniz aplicou efeitos digitais de legibilidade e recolocou, discretamente, o filme em circulação.

Memórias da Resistência





domingo, 26 de maio de 2013

A ditadura perfeita... (Aldous Huxley)



LEVANTE SUA VOZ



Vídeo produzido pelo Intervozes Coletivo Brasil de Comunicação Social com o apoio da Fundação Friedrich Ebert Stiftung. A obra faz um retrato da concentração dos meios de comunicação existente no Brasil.

Capitanias Hereditárias



Legislação precária e burocracia transformam concessões em capitanias hereditárias:
PDF: informativo INTERVOZES | Novembro 2007

A MÍDIA E A MASSA



"A massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa." (George Orwell)

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Ustra: "senhor da vida e da morte"

Ex-agente do DOI-Codi diz que Ustra torturava e que era ‘senhor da vida e da morte’
Evandro Éboli / Publicado: 10/05/13 - 9h16 / Atualizado: 10/05/13 - 10h21

O ex-sargento Marival Chaves presta depoimento à Comissão Nacional da Verdade
Ailton de Freitas / Agência O Globo

BRASÍLIA — A sessão pública da Comissão da Verdade iniciou na manhã desta sexta-feira com depoimento do ex-servidor do DOI-Codi de São Paulo o ex-sargento Marival Chagas, que assegurou que o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, então capitão, comandava as torturas na repressão. Marival afirmou que Ustra era "senhor da vida e da morte", escolhia quem iria viver ou morrer. Ustra também é aguardado para prestar depoimento hoje, mas ele deve permanecer calado após obter na Justiça habeas corpus que lhe garante o direito de permanecer calado. A liminar também determinou que seja garantida sua integridade física durante o depoimento. A Polícia Federal montou esquema de segurança no local.

— Um capitão era naquela ocasião senhor da vida e da morte. Nâo tenho dúvida que ele torturava, porque ele circulava por pela área de interrogatório, especialmente quando tinham presos importantes sendo interrogados. Vi ele lá, por exemplo, na antessala do interrogatório, aguardando o momento de serem chamados o Wladimir Herzog e Paulo Markun (jornalista).

O ex-sargento também contou que os corpos de militantes políticos assassinados em centros de tortura eram exibidos depois para os agentes no DOI-Codi. Ele se recorda da exibição dos corpos do casal Antônio Carlos Bicalho Lana e de sua companheira Sônia Maria Moraes, em 1973.

— Eram exibidos como troféu, ainda com sangue jorrando — disse Marival, que já encerrou seu depoimento.

Neste momento, está sendo ouvido na comissão o vereador Gilberto Natalini, que se opôs a ditadura e foi uma vítima de Carlos Brilhante Ustra no DOI-Codi.

Antes de iniciar seu depoimento, Marival Chagas, entregou cartas com conteúdo de ameaças de morte que recebeu por ter denunciado atos de tortura no DOI-Codi. Marival trabalhou no DOI durante cinco meses entre 1973 e 1974. O ex-sargento disse também que ocorreram muitas mortes na unidade, mas que é "difícil de mensurar quantas".

Esta é a primeira vez que um depoimento de agente da ditadura é aberto ao público. O depoimento acontece no auditório do Centro Cultural do Banco do Brasil, em Brasília, onde fica a sede da Comissão da Verdade.


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sexta-feira, 3 de maio de 2013

Amit Goswami

Goswami fala sobre o novo conceito de Economia Espiritual e como ela pode transformar a sociedade ao suprir as necessidades não materiais que o capitalismo concebido por Adam Smith excluiu da equação.



Zeitgeist

Zeitgeist (pronúncia: tzait.gaisst) é um termo alemão cuja tradução significa espírito da época, espírito do tempo ou sinal dos tempos. O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo.

domingo, 17 de março de 2013

Butoh

Kazuo Ono, The Dead Sea
http://www.youtube.com/watch?v=ZUjhQLB0hXY

SE MEN TE - parte 2 "Devir-feto"  
http://www.youtube.com/watch?v=2tlp12vv0Jg

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Metrópolis (filme)

Metrópolis é um filme alemão de ficção científica produzido em 1927, realizado pelo cineasta austríaco Fritz Lang. Foi, na época, a mais cara produção até então filmada na Europa, e é considerado por especialistas um dos grandes expoentes do expressionismo alemão e também foi uma obra-prima à frente do seu tempo, já que pode se dizer que continua "atual". O roteiro, baseado em romance de Thea von Harbou, foi escrito por ela, em parceria com Lang. Em 2008 foram reencontrados, na Argentina, 30 minutos de metragem deste clássico. Tal parte será restaurada e acrescentada à versão conhecida. Na Berlinale 2010, o filme teve, 83 anos depois, a sua segunda estreia mundial.


O enredo é ambientado no século XXI, numa grande cidade governada autocraticamente por um poderoso empresário. Os seus colaboradores constituem a classe privilegiada, vivendo num jardim idílico, como Freder, único herdeiro do dirigente de Metropolis.

Os trabalhadores, ao contrário, são escravizados pelas máquinas, e condenados a viver e trabalhar em galerias no subsolo. Num meio de miséria entre os operários, uma jovem, Maria, destaca-se, exortando os trabalhadores a se organizarem para reivindicar seus direitos através de um escolhido que virá para os representar.

Através de cenas de forte expressão visual, com o recurso a efeitos especiais, algumas se tornaram clássicas, como a panorâmica da cidade com os seus veículos voadores e passagens suspensas. Alusões bíblicas, mistério, ação e romance, completam o leque que envolve o público e o mantém em suspense até ao final.

A obra demonstra uma preocupação crítica com a mecanização da vida industrial nos grandes centros urbanos, questionando a importância do sentimento humano, perdido no processo. Como pano de fundo, a valorização da cultura, expressa no filme através da tecnologia e, principalmente, da arquitetura. O ponto alto do filme e grande mote é, sem dúvida, o final - onde a metáfora "O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração!" se concretiza no simbólico aperto de mão mediado por Freder entre Grot (líder dos trabalhadores) e Jon Fredersen - o empresário.

FONTE: wikipedia

http://www.youtube.com/watch?v=XFJvZLpEGfo

Tem o filme completo e legendado no youtube!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Exposición N° 1

Natividad, o cachorro que morreu em nome de uma duvidosa arte

Guillermo Vargas Habacuc, um artista costarriquenho em agosto de 2007,  criou uma instalação intitulada “Exposición N° 1″, em uma mostra realizada na Galeria Códice, localizada em Manágua, capital da Nicarágua. Ao som do hino sandinista tocado ao contrário, os visitantes se deparavam, na entrada da exposição, com uma frase na parede (“eres lo que lees”) cujas letras eram formadas por comida de cachorro.
Somos o que lemos?
Logo adiante, os visitantes eram surpreendidos pela seção mais polêmica da instalação de Habacuc: um cachorro enfermo, que teria sido capturado nas ruas de Manágua, preso em um canto da galeria. Segundo o artista, sua obra representava uma homenagem a Natividad Canda, um nicaraguense morto recentemente devido a um ataque feito por dois cães da raça rottweiler. Justificou, desta maneira, a captura de um cachorro indefeso e doente, que também recebeu o nome de Natividad. Que não recebeu nenhum auxílio veterinário, não foi alimentado e, apesar dos pedidos de vários freqüentadores da exposição para que fosse solto, permaneceu amarrado até o dia seguinte à inauguração da instalação, quando morreu de fome diante dos olhares dos espectadores.
Quem é o verdadeiro animal nessa história?
Diante da polêmica que certamente desejava causar, Guillermo Vargas Habacuc afirmou: “O importante para mim era constatar a hipocrisia alheia. Um animal torna-se foco de atenção quando o ponho em um local onde pessoas esperam ver arte, mas não quando está no meio da rua morto de fome”. E arrematou: “O cachorro está mais vivo do que nunca porque segue dando o que falar”.
FONTE: http://pensarenlouquece.com/

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

"PENSO, LOGO...", "EXISTO ONDE NÃO PENSO".

"Dubito, ergo cogito, ergo sum"
"Eu duvido, logo penso, logo existo"

A frase é uma conclusão do filósofo e matemático francês Descartes alcançada após duvidar da sua própria existência, mas comprovada ao ver que pode pensar e, desta forma, conquanto sujeito, ou seja, conquanto ser pensante, existe indubitavelmente.

Descartes pretendia fundamentar o conhecimento humano em bases sólidas e seguras (em comparação com as fundamentações do conhecimento medievais, cujas bases não eram claras e distintas). Para tanto, questionou e colocou em dúvida todo o conhecimento aceite como correto e verdadeiro (utilizando-se assim do ceticismo como método, sem, no entanto, assumir uma posição cética). Ao pôr em dúvida todo o conhecimento que, então, julgava ter, concluiu que apenas poderia ter certeza que duvidava. Se duvidava, necessariamente então também pensava, e se pensava necessariamente existia (sinteticamente: se duvido, penso; se penso, logo existo). Por meio de um complexo raciocínio baseado em premissas e conclusões logicamente necessárias, Descartes então concluiu que podia ter certeza de que existia porque pensava.

A frase "Cogito, ergo sum" aparece na tradução latina do trabalho escrito por Descartes, Discours de la Méthode (1637), escrito originariamente em francês e traduzido para latim anos mais tarde. O trecho original era "Puisque je doute, je pense; puisque je pense, j'existe" e, em outro momento, "je pense, donc je suis". Apesar de Descartes ter usado o vocábulo "logo" (donc), e portanto um raciocínio semelhante ao silogismo aristotélico, a ideia de Descartes era anunciar a verdade primeira "eu existo" de onde surge todo o desejo pelo conhecimento.
FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cogito_ergo_sum


“Penso onde não existo.”

Para o psicanalista francês Jacques Lacan, o sujeito da psicanálise é aquele descentrado, em que a consciência não forma seu centro. Portanto, Lacan acredita que a consciência é uma ilusão e toda certeza é, na verdade, enganosa. Isso vai de encontro com a teoria freudiana. Freud alterou a famosa frase de Descartes. O “penso, logo existo” foi trocado pelo “penso onde não existo”. Essa idéia de Lacan e Freud também casa com o pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que em seu livro Além do Bem e do Mal (1886) afirma que a consciência engana o filósofo e que uma filosofia de verdade deve sempre duvidar do próprio pensamento.

A consciência como mera ilusão de Lacan vai contra a psicologia do ego norte-americana e o racionalismo. O homem, antes centro de seu próprio universo, não controla sequer seus próprios pensamentos. A pergunta que vale para Lacan é sempre: “Sou eu ou é o outro?”. Na verdade, a imagem do outro introjetada (principalmente pai, mãe e antepassados) é a que constitui de fato o sujeito. Portanto, é apenas no inconsciente que temos a referência de nós mesmos, onde se encontra a verdadeira realidade psíquica de cada um de nós.  O pensamento, assim, passa a ser ilusório e o sujeito vai muito além do ego, que em grande parte também é inconsciente. Em uma instância mais radical, é como se fossemos todos bonecos de ventríloquo cumprindo papeis sem saber muito bem os motivos. A mão que nos controla é o inconsciente.

Por isso, para Lacan, o saber da psicanálise não é absoluto, e sim singular e incompleto. O inconsciente é um saber onde não existe um eu, e é estruturado como uma linguagem: o discurso do outro. Essa estrutura de linguagem incide sobre o sujeito à sua completa revelia. Para Lacan, a palavra é a morte da coisa. Ou seja, uma máscara que não nos permite enxergar o que de fato somos – isso é compatível com a filosofia budista e os objetivos da meditação. O que somos, como diria Chico Buarque na letra de “O Que Será”, é aquilo que “não tem nome nem nunca terá”. O psicanalista, assim, deve deixar de lado seu suposto saber e ter a humildade de perceber que ele e o paciente , em última instância, sofrem do mesmo sintoma: uma busca por uma completude imaginária que nunca poderão alcançar. Hoje, a caracterstíca mais importante de um psicanalista é a humildade diante do indizível da existência. E uma profissão com essas características é tudo que sempre busquei ao longo da vida.

Precisei primeiro trabalhar com as palavras para enxergar o quanto elas nos enganam. O silêncio é mesmo uma benção.

FONTE: http://setedoses.wordpress.com/2010/11/28/lacan-a-subejtividade-do-sujeito-e-o-papel-da-minha-nova-profissao/
André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses e termina a primeira etapa de sua formação em psicanálise este ano. As outras etapas ainda demorarão muito. Mais ou menos a vida inteira



O Mundo Percebido, por Clóvis de Barros Filho (vídeo)

O Mundo Percebido from Galeria Experiência on Vimeo.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

As radiações invisíveis e o poder da comunhão direta


[...] É uma espécie de lei: os clichês ocupam os espaços vazios, da mesma forma como as ervas daninhas ocupam os terrenos. Um gesto que for feito apenas por fazê-lo é um ato de força perpetrado contra nossos sentimentos interiores e sua manifestação natural.

Os hábitos mecânicos de um corpo exercitado, e de seus músculos, são muito fortes e teimosos. São como um escravos disposto porém estúpido, que muitas vezes é mais perigoso que um inimigo. Adquirimos os métodos exteriores e os artificialismos mecânicos com uma rapidez extraordinária, e os guardamos por muito tempo. Afinal, a memória muscular de um ser humano, sobretudo a de um ator, é extremamente desenvolvida; enquanto sua memória afetiva, com a lembrança das sensações, das experiências emocionais, é, ao contrário, extremamente frágil.

Ai do ator se houver um fosso entre seu corpo e sua alma, entre sua atividade interior e seus movimentos externos. Ai dele se seu instrumento corpóreo falsifica seus sentimentos, desvia-os da tonalidade certa. É o que ocorre com uma melodia tocada em instrumento desafinado. E quanto mais sincero for o sentimento, mais dolorosa será a discordância.

[...]

A capacidade de manter nosso corpo completamente a serviço dos nossos sentimentos é uma das preocupações primordiais da técnica externa de encarnação de um papel. Há, entretanto, muitos sentimentos incomunicáveis, superconscientes, invisíveis, que nem o equipamento físico mais perfeito pode transmitir. São passados diretamente de alma para alma. As pessoas comungam umas com as outras por meio de correntes interiores invisíveis, radiações de seu espírito, compulsões da sua vontade. Estas têm, no palco, um efeito direto, imediato, poderoso, e transmitem coisas que nem as palavras nem os gestos são capazes de transmitir. A pessoa vive um estado emocional e pode fazer com que outras, com as quais está em comunhão, o vivam também.

Um grande e inveterado erro dos atores é suporem que, na vasta expansão do edifício do teatro, só tem qualidade cênica o que é visível e audível para o público. Mas será que o teatro existe para atender somente aos olhos e ouvidos do público? Será que tudo o que passa pela nossa alma só se presta às palavras, aos sons, aos gestos e aos movimentos?

A irresistibilidade, a contagiosidade e o poder da comunhão direta por meio de radiações invisíveis da vontade e dos sentimentos humanos são grandes. Esse poder é usado para hipnotizar as pessoas, domar animais selvagens ou multidões enfurecidas. Os faquires fazem morrer as pessoas e as ressuscitam. E os atores podem encher grandes auditórios com as radiações invisíveis de suas emoções.

FONTE: A Criação de Um Papel, de Constantin Stanislavski - capítulo III, O período da encarnação física, paginas 127 e 130

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Tapocrifação


São Vital de Milão foi enterrado vivo.

Enterro prematuro, enterro vivo, funeral vivo ou tapocrifação significa ser enterrado ainda vivo. Isso pode acontecer intencionalmente como uma forma de tortura, assassínio ou método de execução, mas também pode acontecer com o consentimento da vítima com o objetivo de escapar ou como forma de suicídio. A vítima também pode ser enterrada viva por engano, ao supor-se que está morta quando não o está. Diz-se que o medo de ser enterrado vivo é um dos mais comuns medos humanos.

Na Antiguidade
A história antiga relata vários casos de pessoas enterradas vivas, como forma de castigo.

Segundo Heródoto, uma das evidências de que Cambises tinha ficado louco foi que ele mandou enterrar vivos, e de cabeça para baixo, doze nobres persas, sem nenhum motivo razoável. Segundo Ctésias de Cnido, Apolonides de Cos, médico e amante da rainha Amitis, viúva de Megabizo, foi enterrado vivo no dia em que Amitis morreu.

Este era o castigo para as virgens vestais que violavam o voto de castidade. Opilia, no início da República Romana e Sextília, na época das Guerras Pírricas, foram enterradas vivas por adultério.

FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tapocrifação

The Raven (O CORVO) - Edgar Allan Poe

Numa sombria madrugada, enquanto eu meditava, fraco e cansado, sobre um estranho e curioso volume de folclore esquecido; enquanto cochilava, já quase dormindo, de repente ouvi um ruído. O som de alguém levemente batendo, batendo na porta do meu quarto. "Uma visita," disse a mim mesmo, "está batendo na porta do meu quarto - É só isto e nada mais."

Ah, que eu bem disso me lembro, foi no triste mês de dezembro, e que cada distinta brasa ao morrer, lançava sua alma sobre o chão. Eu ansiava pela manhã. Buscava encontrar nos livros, em vão, o fim da minha dor - dor pela ausente Leonor - pela donzela radiante e rara que chamam os anjos de Leonor - cujo nome aqui não se ouvirá nunca mais.

E o sedoso, triste e incerto sussurro de cada cortina púrpura me emocionava - me enchia de um terror fantástico que eu nunca havia antes sentido. E buscando atenuar as batidas do meu coração, eu só repetia: "É apenas uma visita que pede entrada na porta do meu quarto - Uma visita tardia pede entrada na porta do meu quarto; - É só isto, só isto, e nada mais."

Mas depois minha alma ficou mais forte, e não mais hesitando falei: "Senhor", disse, "ou Senhora, vos imploro sincero vosso perdão. Mas o fato é que eu dormia, quando tão gentilmente chegastes batendo; e tão suavemente chegastes batendo, batendo na porta do meu quarto, que eu não estava certo de vos ter ouvido". Depois, abri a porta do quarto. Nada. Só havia noite e nada mais.

Encarei as profundezas daquelas trevas, e permaneci pensando, temendo, duvidando, sonhando sonhos mortal algum ousara antes sonhar. Mas o silêncio era inquebrável, e a paz era imóvel e profunda; e a única palavra dita foi a palavra sussurrada, "Leonor!". Fui eu quem a disse, e um eco murmurou de volta a palavra "Leonor!". Somente isto e nada mais.

De volta, ao quarto me volvendo, toda minh'alma dentro de mim ardendo, outra vez ouvi uma batida um pouco mais forte que a anterior. "Certamente," disse eu, "certamente tem alguma coisa na minha janela! Vamos ver o que está nela, para resolver este mistério. Possa meu coração parar por um instante, para que este mistério eu possa explorar. Deve ser o vento e nada mais!"

Abri toda a janela. E então, com uma piscadela, lá entrou esvoaçante um nobre Corvo dos santos dias de tempos ancestrais. Não pediu nenhuma licença; por nenhum minuto parou ou ficou; mas com jeito de lorde ou dama, pousou sobre a porta do meu quarto. Sobre um busto de Palas empoleirou-se sobre a porta do meu quarto. Pousou, sentou, e nada mais.

Depois essa ave negra, seduzindo meu triste semblante, acabou por me fazer sorrir, pelo sério e severo decoro da expressão por ela mostrada. "Embora seja raspada e aparada a tua crista," disse eu, "tu, covarde não és nada. Ó velho e macabro Corvo vagando pela orla das trevas! Dize-me qual é teu nobre nome na orla das trevas infernais!".

E o Corvo disse: "Nunca mais."

Muito eu admirei esta ave infausta por ouvir um discurso tão atenta, apesar de sua resposta de pouco sentido, que pouca relevância sustenta. Pois não podemos deixar de concordar, que ser humano algum vivente, fora alguma vez abençoado com a vista de uma ave sobre a porta do seu quarto; ave ou besta sobre um busto esculpido, sobre a porta do seu quarto, tendo um nome como "Nunca mais."

Mas o corvo, sentado sozinho no busto plácido, disse apenas aquela única palavra, como se naquela única palavra sua alma se derramasse. Depois, ele nada mais falou, nem uma pena ele moveu, até que eu pouco mais que murmurei: "Outros amigos têm me deixado. Amanhã ele irá me deixar, como minhas esperanças têm me deixado."

Então a ave disse "Nunca mais."

Impressionado pelo silêncio quebrado por resposta tão precisa, "Sem dúvida," disse eu, "o que ele diz são só palavras que guardou; que aprendeu de algum dono infeliz perseguido pela Desgraça sem perdão. Ela o seguiu com pressa e com tanta pressa até que sua canção ganhou um refrão; até ecoar os lamentos da sua Esperança que tinha como refrão a frase melancólica 'Nunca - nunca mais.' "

Mas o Corvo ainda seduzia minha alma triste e me fazia sorrir. Logo uma cadeira acolchoada empurrei diante de ave, busto e porta. Depois, deitado sobre o veludo que afundava, eu me entreguei a interligar fantasia a fantasia, pensando no que esta agourenta ave de outrora, no que esta hostil, infausta, horrenda, sinistra e agourenta ave de outrora quis dizer, ao gritar, "Nunca mais."

Concentrado me sentei para isto adivinhar, mas sem uma sílaba expressar à ave cujos olhos ígneos no centro do meu peito estavam a queimar. Isto e mais eu sentei a especular, com minha cabeça descansada a reclinar, no roxo forro de veludo da cadeira que a luz da lâmpada contemplava, mas cujo roxo forro de veludo que a lâmpada estava a contemplar ela não iria mais apertar, ah, nunca mais!

Então, me pareceu o ar ficar mais denso, perfumado por invisível incensário, agitado por Serafim cujas pegadas ressoavam no chão macio. "Maldito," eu gritei, "teu Deus te guiou e por estes anjos te enviou. Descansa! Descansa e apaga o pesar de tuas memórias de Leonor. Bebe, oh bebe este bom nepenthes e esquece a minha perdida Leonor!"

E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta!" disse eu, "coisa do mal! - profeta ainda, se ave ou diabo! - Tenhas sido enviado pelo Tentador, tenhas vindo com a tempestade; desolado porém indomável, nesta terra deserta encantado, neste lar pelo Horror assombrado, dize-me sincero, eu imploro. Há ou não - há ou não bálsamo em Gileade? - dize-me - dize-me, eu imploro!"

E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta!" disse eu, "coisa do mal! - profeta ainda, se ave ou diabo! Pelo Céu que sobre nós se inclina, pelo Deus que ambos adoramos, dize a esta alma de mágoa carregada que, antes do distante Éden, ela abraçará aquela santa donzela que os anjos chamam de Leonor; que abraçará aquela rara e radiante donzela que os anjos chamam Leonor."

E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Que essa palavra nos aparte, ave ou inimiga!" eu gritei, levantando - "Volta para a tua tempestade e para a orla das trevas infernais! Não deixa pena alguma como lembrança dessa mentira que tua alma aqui falou! Deixa minha solidão inteira! - sai já desse busto sobre minha porta! Tira teu bico do meu coração, e tira tua sombra da minha porta!"

E o Corvo disse: "Nunca mais."

E o Corvo, sem sequer se bulir, se senta imóvel, se senta ainda, sobre o pálido busto de Palas que há sobre a porta do meu quarto. E seus olhos têm toda a dor dos olhos de um demônio que sonha; e a luz da lâmpada que o ilumina, projeta a sua sombra sobre o chão. E minh'alma, daquela sombra que jaz a flutuar no chão, levantar-se-á - nunca mais!

FONTE: http://www.helderdarocha.com.br/literatura/poe/prosa1.html

Edgar Allan Poe

"Me tornei louco, com longos períodos de horrível sanidade" (Edgar Allan Poe)




Edgar Allan Poe foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, fez parte do movimento romântico americano. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Foi o primeiro escritor americano conhecido a tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difícil.

As obras mais conhecidas de Poe são Góticas, um gênero que ele seguiu para satisfazer o gosto do público. Seus temas mais recorrentes lidam com questões da morte, incluindo sinais físicos dela, os efeitos da decomposição, interesses por tapocrifação, a reanimação dos mortos e o luto. Muitas das suas obras são geralmente consideradas partes do gênero do romantismo negro, uma reação literária ao transcendentalismo, do qual Poe fortemente não gostava.

Diferentemente da maioria dos autores de contos de terror, Poe usa uma espécie de terror psicológico em suas obras, seus personagens oscilam entre a lucidez e a loucura, quase sempre cometendo atos infames ou sofrendo de alguma doença. Seus contos são sempre narrados na primeira pessoa.

Além do horror, Poe também escreveu sátiras, contos de humor e hoaxes. Para efeito cômico, ele usou a ironia e a extravagância do rídiculo, muitas vezes na tentativa de liberar o leitor da conformidade cultural. De fato, "Metzengerstein", a primeira história que Poe publicou, e sua primeira incursão em terror, foi originalmente concebida como uma paródia satirizando o gênero popular. Poe também reinventou a ficção científica, respondendo na sua escrita às tecnologias emergentes como balões de ar quente em "The Balloon-Hoax".

A escrita de Poe reflete suas teorias literárias, que ele apresentou em sua crítica e também em peças literárias como "The Poetic Principle".

Ele não gostava de didaticismo e alegoria, pois acreditava que os significados na literatura deveriam ser uma subcorrente sob a superfície. Trabalhos com significados óbvios, ele escreveu, deixam de ser arte. Acreditava que o trabalho de qualidade deveria ser breve e concentrar-se em um efeito específico e único. Para isso, acreditava que o escritor deveria calcular cuidadosamente todos sentimentos e ideias.

Em "The Philosophy of Composition", uma peça na qual Poe descreve seu método de escrita em "The Raven", ele afirma ter seguido estritamente este método. Porém, foi questionado se ele realmente seguiu esse sistema.

T. S. Eliot disse: "É difícil para nós lermos esta peça sem pensar se Poe escreveu seu poema com tanto cálculo, ele poderia ter pego um pouco mais de dores sobre isto: o resultado dificilmente tem crédito ao método". O biógrafo Joseph Wood Krutch descreveu a peça como "um exercício um tanto engenhoso na arte de racionalização".

FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Edgar_Allan_Poe

sábado, 19 de janeiro de 2013

Muito Além do Cidadão Kane

O Filme proibido sobre a Rede Globo produzido pela BBC

UM POUCO DA HISTÓRIA SECRETA
Um super investimento do governo militar em telecomunicação da suporte para que nasça uma das maiores rede de tv do mundo. ( Pão e circo ao povo) futebol, novela, carnaval transmitidos ao Brasil e a saúde e educação abandonados mas o povo sob total controle da REDE GLOBO ... que em troca transmitia apenas o que era conveniente ao's' governo's'...AI5, Seqüestro do embaixador americano, bombardeio do teatro, assassinato de jornalista isso tudo era proibido de ser passado em meios de comunicação, porém a REDE GLOBO foi muito além do que era solicitado. Tancredo Neves ganha as eleições e logo anuncia Antonio Carlos Magalhães como ministro das telecomunicações porém, morre antes de assumir a presidência. Sarnei assume e mantém Antonio Carlos Magalhães como ministro das telecomunicações..... Antonio Carlos Magalhães cancela contrato com a NEC do Brasil que passa a valer muito pouco e logo é comprada pela REDE GLOBO após a compra Antonio Carlo Magalhães volta os contratos com a NEC do Brasil com Governo Federal com isso a REDE GLOBO ganha 350 Milhões rapidamente. Em troca Antonio Carlos Magalhães ganha algumas concessões da Rede Globo na Bahia , o Presidente Sarnei dá 90 concessões de TV em seu mandato Só o Presidente Sarnei ganha 2 afiliadas da Rede Globo. Desde então nenhuma concessão foi dada.


Algumas Declarações contidas no Documentário:

Chico Buarque (A tv globo proibia pessoas de existir, ela tornava pessoas em não pessoas... ela ia muito além do que era solicitada)

Washington Olivetto ( O Brasil as vezes deixa de falar português e passa a falar TV Globes.)

A Palavra do Presidente ( Que os ricos sejam mais ricos para que os pobre por sua vez sejam menos pobres.) 

A Palavra do Presidente ( Quando vejo o mundo ele está terrível, mas quando vejo o brasil na TEVÊ GLOBO tudo está uma maravilha)

Luiz Inacio Lula da Silva (a globo só mente ... ela só informa sobre interesses patronais...) 

Armando Nogueira, fala diretamente ao dono da empresa Globo (Dr Roberto eu não vi esse compacto, se tivesse visto eu teria impedido que ele fosse ao ar, ..... a REDE GLOBO foi infeliz e fez uma edição burra... - Se referindo ao debate para presidente Collor x Lula) imediatamente após a reclamação Armando Nogueira, chefe de jornalismo da Rede Globo há 22 anos, foi aposentado e substituído pelo editor do debate.

FONTE: http://www.documentarios.org/video/detalhar/49/muito_alem_do_cidadao_kane/



Maiores informações no Wikipedia.org (clique aqui)

Kafka foi um profeta....


Livro define "BBB" e outros reality shows como ritos de tortura
Carlos Minuano Do UOL, em São Paulo, 19/01/2013


"BBB13" começou com prova de resistência. Dhomini e Nasser, que venceu a prova, ficaram 15 horas em pé com as mãos em um carro
  • "BBB13" começou com prova de resistência. Dhomini e Nasser, que venceu a prova, ficaram 15 horas em pé com as mãos em um carro
Uma mulher desperta em um quarto com um aparelho em sua cabeça que, se não desarmado a tempo, se abrirá, rompendo sua mandíbula e vergando seu crânio ao avesso; ao seu lado um homem desmaiado. Em um monitor de TV, uma voz lança o desafio: com um bisturi ela deveria abrir o ventre de seu companheiro de clausura e lá procurar a chave que desarma o aparelho.
A cena descrita é da série de filmes de terror "Jogos Mortais", mas para a socióloga Silvia Viana, professora de sociologia na Fundação Getúlio Vargas (FGV), o roteiro se encaixa ao formato dos reality shows, como o "Big Brother Brasil", da Rede Globo, no ar há 13 anos. Em seu livro, que acaba de ser lançado, "Rituais de Sofrimento"(editora Boitempo, 192 págs., R$ 37), ela define o programa como um rito de tortura.
A comparação entre o filme "Jogos Mortais" e o "BBB" não foi feita pela pesquisadora, mas por um participante do reality show, em meio a uma prova de resistência. Ele estava chamando a atenção para a tortura a qual estavam sendo submetidos naquele instante. Mas, as semelhanças não se encerram aí. Segundo a socióloga, são muitas.
  • No "BBB9", Leonardo não resistiu ao Quarto Branco e pediu para sair do programa
Dividido em quatro partes, "Show de horror", "Das regras", "Dos jogadores" e "Das provas", o livro é resultado de uma pesquisa de doutorado de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP). A autora conta que a pesquisa teve início quando se debruçava sobre outro estudo, de gestão da empresa capitalista flexível. "Na metade do processo, assisti, pela primeira vez, a um reality show", diz. Era um episódio do ‘BBB’ no qual três participantes foram levados ao "Quarto Branco". "Uma forma indisfarçada de tortura por privação de sentidos", comenta.
Naquele momento, ela teve o insight que levou ao tema do livro. "Percebi não apenas a violência levada a cabo pelo programa, mas também sua afinidade com a brutalidade do mundo atual e do trabalho nos dias de hoje", diz. Para a socióloga, é esse o ponto mais relevante da questão: entender a aproximação entre a vida real e o mundo reproduzido em programas de TV, em especial os reality shows.
O mais bizarro é o normal
O mais estranho, diz a socióloga, é justamente que a "bizarrice" é o normal. "Isso é tanto nos reality shows como do outro lado da tela". Não é à toa que o mentor do projeto tenha sido o célebre Franz Kafka, que retrata em sua obra o desespero do ser humano, atordoado frente aos pesadelos labirínticos da existência e do mundo cotidiano, impessoal e burocrático – um texto do escritor tcheco abre o primeiro capítulo.
  • Renatinha atende o Big Fone no "BBB12"
Uma imagem que, para a socióloga, resume o absurdo generalizado dos reality shows é o "Big Fone". "Uma voz de comando distorcida transmite aos participantes ordens malucas e cheias de exceções, punições adicionais, obrigatoriedade de sigilo até determinado momento, colares disso e daquilo".
E quanto mais escorregadios os comandos, maior o zelo em seu cumprimento, prossegue a pesquisadora. "Não importa que a ordem seja sair da casa vestido de galinha e cacarejar assim que um sino tocar, e não importa que os participantes tenham plena consciência de que se trata de uma situação ridícula e humilhante: o comando será cumprido à risca".
"O mesmo não ocorre em processos seletivos de empresas?", questiona. "Nunca se sabe exatamente o que o empregador busca com aqueles testes de caligrafia, dinâmicas de grupo, perguntas a respeito de seus hobbies, provas das mais esdrúxulas, mas é fundamental que se faça, seja lá o que for, seja lá como for".  
Em sua pesquisa, a socióloga mergulha nessa "zona cinzenta" assombrosa, em que os papéis de vítimas e violentadores não estão claramente definidos. Uma pergunta inevitável é: o que leva uma pessoa a se sujeitar aos ‘rituais de dor e sacrifício’ dos reality shows? A explicação mais comum é de que as pessoas topam participar pelo prêmio, pela fama ou por exibicionismo, de que participantes agem por pura racionalidade instrumental, enquanto outros são levados por um desejo inconsciente. Silvia recusa ambos.

Para ela, o buraco é ainda mais embaixo. "Não se pode afirmar que prêmio e fama justifiquem a participação: as chances de ganhar o prêmio são pequenas e o sofrimento a que serão submetidos é desproporcional ao ganho". "Quanto à fama, já é pública e notória a pecha que carrega um ex-BBB, com raríssimas exceções (que confirmam a regra), os participantes de reality shows são relegados ao esquecimento".
Não se pode afirmar que prêmio e fama justifiquem a participação: as chances de ganhar o prêmio são pequenas e o sofrimento a que serão submetidos é desproporcional ao ganho. Quanto à fama, já é pública e notória a pecha que carrega um ‘ex-BBB’, com raríssimas exceções (que confirmam a regra), os participantes de reality shows são relegados ao esquecimento
Silvia Viana, socióloga, autora de "Rituais de Sofrimento"
Silvia avalia que afirmar que os participantes são levados pelo desejo de exibição seria desconsiderar todo o sofrimento pelo qual passam. "Eles não estão lá gozando, nem mesmo por alguma perversão masoquista. Seu sofrimento é próprio de quem tem alguma tarefa a cumprir, é próprio do trabalho".
Oportunidade imperdível ou lixo descartável?
A pesquisa por trás do livro se propõe à tarefa nada simples de entender o fenômeno dos reality shows, afinal por que tantos querem participar do programa televisivo. Silvia arrisca um caminho. "Temos que levar em consideração aquilo o que os próprios participantes afirmam a respeito de seu voluntariado: trata-se de uma ‘oportunidade imperdível’. Mas oportunidade para quê?", indaga. Os critérios para alcançar o prêmio, segundo ela, são imponderáveis, e a fama resultante é infâmia. Ou seja, não faz sentido.

PEGADINHA

Silvia abre o livro com uma "pegadinha" do "Pânico na TV", cujo alvo são os próprios funcionários do programa de humor. "Nesse caso, a equipe, que acabara de voltar de uma longa e exaustiva viagem, foi obrigada a rodar por horas, sem destino, enquanto um colega de trabalho foi incumbido de fazer piadas da situação na qual se encontravam". O caso em questão avançou até um determinado momento em que o comediante, que sabia estar cometendo uma violência contra seus colegas, deixou claro que, também ele, estava sofrendo com a situação e que só estava fazendo aquilo porque estava lá a trabalho. "Essa cena condensa inúmeras questões que devemos nos fazer: em primeiro lugar, qual o propósito dessa violência, cujo termo "brincadeira" não chega a esconder? Em segundo lugar, porque as pessoas envolvidas permaneceram no carro ao invés de simplesmente pegar um táxi e ir para casa?", analisa a autora. Contudo, o mais perturbador, na opinião da socióloga, é o fato do trabalho sujo estar nas mãos do companheiro de trabalho. "Em nenhum momento a produção foi questionada".
"O problema da participação é precisamente o fato dela não apresentar nenhum por que, não tem sentido social, por mais que caibam aí inúmeras racionalizações individuais", analisa. De acordo com o estudo, as pessoas participam porque se tornou um imperativo em nossa sociedade, "completamente desprovido de conteúdo", reitera a autora. "Por isso eu não comparo os reality shows a rituais, eles são rituais", afirma.
Reality show é "mercadoria de quinta categoria", diz Silvia. "Os próprios produtores não fazem questão alguma de disfarçar a baixa qualidade estética, informativa, cultural ou o que mais pudesse justificar sua existência", completa. Para ela, nem mesmo o público que acompanha os programas defende alguma possível qualidade. "Ninguém sustentaria que aquilo é algo mais que lixo descartável".
A crítica fundamental, e corrosiva, em "Rituais de Sofrimento" é de que assim como os participantes, os telespectadores assistem (e também participam, o que é fundamental) cientes de que não há nisso qualquer sentido ou finalidade. "Simplesmente respondem ao comando, que obriga a ‘estar no mundo’, ‘topar’, ‘participar’", diz.
Quanto à teoria de que o público é ingênuo, manipulável, iludido ou perverso, para a pesquisadora, nada disso explica o fenômeno, apenas indica a arrogância de quem a faz. "Todos estamos submetidos ao imperativo vazio da participação. Assim como aqueles que votam para a eliminação no BBB trabalham de graça para a Globo, aqueles que enviam seus vídeos para o You tube ou postam comentários no Facebook trabalham de graça para essas corporações. Sabemos disso e, mesmo assim, fazemos. Nossa ilusão reside na prática, não nas consciências. Nosso mundo é bizarro", arremata.

FONTE: http://televisao.uol.com.br/bbb/bbb13/noticias/redacao/2013/01/19/livro-define-bbb-e-outros-reality-shows-como-ritos-de-tortura.htm

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Cidadão Boilesen

SÃO PAULO - Há 18 anos - em 1991 -, Chaim Litewski ingressou na ONU, o que o faz hoje viver em Nova York. Em novembro de 2009 ele voltou ao Brasil - e a São Paulo - para participar de um debate sobre seu documentário Cidadão Boilesen, que estreou nos cinemas dia 27 de novembro do mesmo ano. Cidadão Boilesen foi premiado no Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, esteve no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo. Sempre aplaudido pelo público e pela crítica, levanta o véu sobre a Operação Bandeirantes.


http://youtu.be/9TrocKiappo

A Oban, como era chamada, foi um centro de informações, investigações e de torturas montado pelo Exército brasileiro no fim dos anos 1960 para combater organizações de esquerda que confrontavam o regime ditatorial que vigorava desde 1964 no País. O filme deixa claro que era financiada por empresários e banqueiros. O caso de Henning Boilesen, o cidadão Boilesen, é exemplar. Dinamarquês naturalizado brasileiro, ele virou empresário no País. Anticomunista ferrenho, ligou-se a grupos militares e paramilitares. Outros empresários e banqueiros - nomeados no filme - também fizeram isso, mas Boilesen se destacava por uma particularidade fartamente debatida no filme. Sádico, ele tinha um prazer especial em seguir as sessões de tortura, chegando a fornecer carros da empresa Ultragaz, do grupo Ulbra, que presidia, para operações de repressão. Em 1971, foi vítima de uma emboscada e morto por guerrilheiros.

Um dos entrevistados, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, faz uma bela análise sociológica do episódio. Guerrilheiros fazem acusações a Boilesen, mas seus familiares - o filho, em particular - contestam que fosse o monstro sugerido em Cidadão Boilesen. Entretanto, os indícios são muitos e confirmados por outros notórios personagens ligados à Oban, incluindo o célebre Coronel Erasmo Dias. No debate que antecedeu a estreia do filme, Litewski lembrou que foi em 1968 que ouviu pela primeira vez, na televisão, o nome de Boilesen ligado a grupos militares. Após a morte do empresário, ele nunca deixou de pensar no assunto, mas só começou a encarar a possibilidade de realização de um filme a partir do depoimento que colheu do ex-guerrilheiro Carlos Eugênio da Paz. "Só aí foi que eu realmente me conscientizei de que tinha material para uma obra consistente."

Mesmo assim, foram mais de 15 anos de pesquisa, que se concluíram em sua estreia. Litewski elaborou uma lista de 200 possíveis entrevistados. Um terço lhe bateu o telefone na cara, tão logo ele anunciava sua intenção. Outro terço admitia dar depoimento, sem que fosse gravado ou filmado, certamente temendo represálias. O terço final, finalmente, deu a cara e a voz às denúncias formuladas no filme. Elas de alguma forma corrigem a história oficial. Mostram que a famigerada ditadura foi, na verdade, uma aliança civil-militar, incentivada e sustentada por setores de peso na sociedade, e não apenas empresários da Fiesp ou banqueiros da Febraban. Nem a imprensa é poupada. Litewski, que se autodefine como ‘rato de pesquisa’, só cita empresários e organizações que tenham sido mencionados por no mínimo três fontes diferentes.

Formado em comunicação, propaganda e cinema, Chaim Litewski especializou-se em filmar, documentar e discutir conflitos. Ele admite que tem uma relação de fascinação e ódio pela violência. Este documentário, feito ao longo de tanto tempo, o levou até a Dinamarca, em busca das origens de Henning Boilesen. Lá ele ouviu um depoimento muito interessante, que está no filme - o empresário, que teve uma origem humilde, tinha um lado sombrio muito forte na sua personalidade. Criança, teve um prazer tão grande em observar a punição de colegas da escola que o caso foi suficientemente inusitado para merecer a observação de um dos professores, acrescentada à ficha escolar. Na Dinamarca, a própria cultura local talvez lhe impusesse manter essas tendências perversas reprimidas. No Brasil da ditadura civil/militar, em contato com figuras como o sinistro delegado Sérgio Paranhos Fleury, essas tendências não apenas afloraram como foram liberadas.

Litewski conta que, durante muito tempo, somente conseguiu tocar o projeto de Cidadão Boilesen nas horas vagas. Ele trabalhava regularmente, nas suas funções habituais, e às 17 horas, 18 horas ficava liberado para se debruçar sobre os penosos acontecimentos que o documentário registra (e analisa). A verba sempre foi curta - ele só conseguiu finalizar Cidadão Boilesen após a premiação no É Tudo Verdade. Na Dinamarca, quase conseguiu uma parceria, mas os dinamarqueses impunham certas condições e elas se referiam principalmente ao tom do filme, ao enfoque da direção. Queriam o filme compassivo, indignado, com ênfase nas cordas do cello - pegando carona na metáfora musical, já que o ex-guerrilheiro Carlos Eugênio é hoje músico. Litewski queria incorporar música brejeira, fazer sátira, num estilo mais brechtiano.

É o que faz a diferença em Cidadão Boilesen, e o diretor sabe disso. Litewski e o produtor Pedro Asbeg sabem que estão contribuindo para que uma parte triste da história do Brasil seja resgatada e debatida. O que mostram não é agradável, mas necessário. Na pesquisa, foram reunidos muito mais documentos e depoimentos. Todo esse material precisa agora ser divulgado no site do filme ou em DVD, quando sair.

FONTE: estadao.com.br


http://youtu.be/cFEkY1b7yHM